Sem desenvolvimento humano integral fica difícil combater a corrupção

Entrevista com o prof. Francisco Borba, do Núcleo Fé e Cultura, da PUC-SP

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Por Alexandre Ribeiro

SÃO PAULO, terça-feira, 14 de julho de 2009 (ZENIT.org).- “Sem desenvolvimento humano integral, isto é, sem instrução, solidariedade, luta pelo bem comum, fica realmente muito difícil combater a corrupção”, afirma o prof. dr. Franscisco Borba Ribeiro Neto.

Coordenador de projetos do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o prof. Francisco Borba concedeu entrevista a Zenit sobre a encíclica “Caritas in veritate”. 

–A encíclica “Caritas in veritate” favorece a compreensão de um verdadeiro humanismo? Como?

–Prof. Francisco Borba: O resgate do humanismo é um ideal permanente na sociedade atual. O homem contemporâneo tem uma profunda necessidade de um modo de ser, de agir no mundo econômico, de fazer política onde ele possa ver sua humanidade refletida. Contudo, a pessoa, para descobrir sua humanidade de forma livre e positiva, precisa enfrentar seus limites existenciais – que a Igreja chama de “pecado original” – e fazer a experiência de ser amado de forma gratuita. Sem a consciência do limite e a experiência do amor, não há verdadeiro humanismo.

Mas, no mundo atual, a cultura procura eliminar a consciência do limite humano, afastando até esconder as experiências de morte e sofrimento, procurando usar a técnica como uma ferramenta que elimina a necessidade do compromisso ético e do empenho responsável da liberdade. Paralelamente, o amor fica reduzido ao sentimentalismo e ao intimismo, fechado na vida privada, quase que proibido de ter uma expressão pública verdadeira.

“Caritas in veritate” rompe esta gaiola de ilusão na qual a cultura pós-moderna encerrou o humanismo ao recolocar no centro da vida econômica, política e social a questão da ética, da liberdade e da responsabilidade humana, e ao repropor o amor gratuito que Deus dá ao mundo, particularmente através de Cristo. Sem a centralidade do amor de Cristo, do dom gratuito de Deus ao homem, a nossa sede por amor não se aplacaria jamais e nós mesmos nunca poderíamos aceitar plenamente nossa liberdade, porque aceitá-la implica em aceitar também nossos limites – e o homem, se não é amado e perdoado, tem medo de seus limites.

–Que é o desenvolvimento humano no ponto de vista da encíclica? É possível vislumbrá-lo hoje ou é um sonho difícil de alcançar?

–Prof. Francisco Borba: Na visão da encíclica, o desenvolvimento humano é um processo “integral”, isto é, “que atinge todos os homens e o homem todo”. Isso implica, em primeiro lugar, na sua universalização. Não se pode pensar num desenvolvimento integral onde existem profundas disparidades sociais entre ricos e pobres, onde existe exclusão – seja no interior de uma nação ou no cenário internacional. Mas ele também abrange “o homem todo”, isto é, todas as dimensões do viver humano: o material, o social, o afetivo, o cultural, o espiritual. Por isso, nossa sociedade frequentemente apresenta pessoas com um subdesenvolvimento humano. Sacrificaram, em nome do crescimento material, aspectos de suas vidas afetiva e espiritual, por exemplo. Por isso, a “nova síntese humanista” que o papa propõe implica também numa postura mais adequada da pessoa humana em relação a seus objetivos de vida e seu compromisso para com aqueles que sofrem.

–Comente por favor um ponto que lhe chamou a atenção de forma especial na encíclica.

–Prof. Francisco Borba: Para nós, brasileiros, o aspecto mais interessante da encíclica, do ponto de vista de suas implicações políticas, é a relação entre ética e solidariedade. Os escândalos de corrupção na vida política brasileira sempre ocupam as páginas dos jornais. Mas poucas vezes percebemos que, por traz da permanência destas condutas políticas antiéticas, existe uma sociedade que não experimentou um “desenvolvimento integral” e que, por isso, tem dificuldade de eleger políticos éticos. Não se trata do jargão “o povo não sabe votar”, mas de perceber que, sem desenvolvimento humano integral, isto é, sem instrução, solidariedade, luta pelo bem comum, fica realmente muito difícil combater a corrupção – pois o pecado está em todos nós e só uma vida solidária e uma razão capaz de analisar e discernir claramente o que é melhor podem nos ajudar a superar a inclinação para o mal que sempre tende a aparecer na sociedade. A reflexão sobre a forma como o papa articula amor, solidariedade e compromisso ético é um ponto muito interessante e importante para a vida pública brasileira.

[O Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, através de um convênio com o Observatório Van Thuân para Doutrina Social da Igreja, está publicando textos de explicação e comentários à encíclica “Caritas in veritate” no site: http://www.pucsp.br/fecultura/caritasveritate.html]