Sem ética não haverá ordem mundial justa, afirma Papa

É necessário construir uma economia “socialmente responsável e à medida do homem”

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Por Inma Álvarez

CIDADE DO VATICANO, quinta-feira, 27 de maio de 2010 (ZENIT.org). Bento XVI reiterou, no sábado passado, que a ética é indispensável para que se construa uma ordem mundial justa, baseada na solidariedade.

Assim afirmou ao receber os participantes do Congresso de estudo, com o tema "Desenvolvimento, progresso e bem comum", celebrado em Roma pela Fundação Centesimus Annus-Pro Pontifice, instituição de direito pontifício criada para dar conhecimento à doutrina social da Igreja no âmbito empresarial e social.

Os membros do congresso, liderados pelo presidente da Fundação, o espanhol Domingo Sugranyes Bickel, foram recebidos pelo Papa ao terminar suas atividades.

O Papa se dirigiu a eles tratando sobre os temas do congresso e, em especial, sobre a questão da ética, pois o bem comum, afirmou, não consiste em apenas assegurar os bens materiais.

O bem comum e o propósito dão sentido ao progresso e o desenvolvimento, "os quais de outra forma se limitariam somente à produção de bens materiais; estes são necessários, mas sem a orientação ao bem comum, termina por prevalecer o consumismo, o desperdício, a pobreza e os desequilíbrios; fatores negativos ao progresso e ao desenvolvimento".

Por conseguinte, o Papa insistiu na necessidade de construir uma ordem econômica e produtiva "socialmente responsável e à medida do homem", assim como o reforço das "garantias próprias do Estado de Direito, um sistema de ordem pública justo e eficaz, no pleno respeito dos direitos humanos, como também instituições verdadeiramente democráticas e participativas".

"O que é fundamental e prioritário, face o desenvolvimento da inteira família dos povos, é trabalhar para reconhecer a verdadeira balança de bens-valores. Somente graças a uma correta hierarquia dos bens humanos é possível entender que tipo de desenvolvimento deve ser promovido."

O desenvolvimento integral dos povos "não se gera somente com a difusão da empresa", nem tampouco com "os bens materiais e cognitivos como a casa e a instrução", mas é necessário um "bem humano integral", um objetivo "a cuja luz é pensado e desejado o desenvolvimento".

"A noção de desenvolvimento humano integral pressupõe coordenadas precisas, como a subsidiariedade e a solidariedade, assim como a interdependência entre Estado, sociedade e mercado."

"A política dever ter a primazia sobre as finanças, e a ética deve guiar cada atividade."

Ademais, o Pontífice sublinhou a importância do diálogo inter-religioso: "as religiões são decisivas, especialmente quando ensinam a fraternidade e a paz, porque educam a dar espaço a Deus e a estar abertos ao transcendente, em nossas sociedades marcadas pela secularização".

"A exclusão das religiões do âmbito público, como, por outro lado, o fundamentalismo religioso, impedem o encontro entre as pessoas e sua colaboração para o progresso da humanidade; a vida da sociedade fica pobre em motivações e a política assume uma máscara opressora e agressiva", acrescentou.

 Globalização e crise

O Papa abordou duas das questões capitais à reflexão atual da doutrina social da Igreja, que são a globalização e a atual crise econômica.

Neste sentido, sublinhou que a crise e as dificuldades que hodiernamente sofrem as relações internacionais, os Estados, a sociedade e a economia "são em grande parte devidas à falta de confiança e de uma adequada inspiração solidária, criativa e dinâmica, orientada ao bem comum, que leve a relações genuinamente humanas de amizade, de solidariedade e de reciprocidade também ‘dentro' da atividade econômica".

O Papa explicou que um dos maiores riscos hoje é o de uma globalização exclusivamente econômica, para qual "não corresponda a interação ética das consciências e das inteligências, da qual possa surgir um desenvolvimento verdadeiramente humano como resultado".

Citou como exemplo disto os governantes que, "perante renovados episódios de especulações irresponsáveis sobre os países mais fracos, não reagem com decisões apropriadas de um governo financeiro".

"Mais que nunca, hoje a família humana pode crescer como sociedade livre de povos livres, enquanto a globalização for guiada pela solidariedade e pelo bem comum, como também pela respectiva justiça social, a qual encontra na mensagem de Cristo e da Igreja uma fonte preciosa."

Com efeito, concluiu encorajando à Fundação para continuar aprofundando-se no conhecimento da Doutrina Social.

"A visão cristã do desenvolvimento, do progresso e do bem comum, como surge da Doutrina Social da Igreja, responde às expectativas mais profundas do homem e seu compromisso em aprofundá-la e difundi-la é uma válida contribuição edificar a civilização do amor", acrescentou.