Ser feliz na enfermidade

D. Jorge Ortiga no XXIV Encontro Nacional da Pastoral da Saúde em Fátima

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BRAGA, quarta-feira, 02 de maio de 2012(ZENIT.org) - Entre 2 e 5 de maio, o Centro Pastoral de Paulo VI, no Santuário de Fátima, acolhe o XXIV Encontro Nacional da Pastoral da Saúde, uma iniciativa promovida pela Comissão Nacional Pastoral da Saúde, numa organização da Comissão Nacional da Pastoral da Saúde. O Encontro deste ano será subordinado ao tema “Cuidados de Saúde, Lugares de Esperança" e contará com intervenções de referência na Saúde em Portugal.

Apresentamos a seguir a homilia de D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga, Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, na Eucaristia deste Encontro.

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Ser feliz na enfermidade

1. «Era uma vez um médico que viu um doente idoso que já não dava sinais de cura no hospital. Passavam os dias e ele parecia estar resignado a morrer o mais depressa possível. Por mais que as enfermeiras o animassem, só com muito dificuldade e paciência conseguiam que ele oferecesse uma palavra ou um sorriso. Certo dia, ao passar pelo corredor o médico ficou surpreendido ao vê-lo animado, com bom aspecto e a ser ajudado pelos familiares a levantar-se da cama.

Sorrindo de satisfação, o médico pergunta-lhe: “Então, o que lhe aconteceu? Ainda na passada semana estava tão desanimado e hoje está totalmente diferente?” Perante as perguntas, o idoso sorriu e disse-lhe:“Tem razão! Alguma coisa aconteceu: o meu netinho veio cá ontem visitarme e disse-me para voltar depressa para casa, pois precisava da minha ajuda: precisa que o ajude a remendar o pneu da bicicleta!”»[1]

2. Caros cristãos, afinal também as crianças podem fazer milagres e salvar muita gente nos dias de hoje! Aliás, foi essa a missão que Deus-Pai confiou ao seu Filho, como escutávamos no evangelho: “Eu vim como luz ao mundo (…), não para julgar o mundo, mas para o salvar!” Em pleno Tempo Pascal, a Ressurreição confere-nos uma missão: publicitar a notícia salvadora do Messias de Deus. Uma salvação que não se cinge a uma vida depois da morte, mas que se opera aqui e agora na
concretude da vida humana, nomeadamente na enfermidade.

3. Na sua mensagem para o Dia Mundial do Doente, o Papa Bento XVI recorda-nos a importância do Sacramento da Penitência e da Santa Unção.
Como tal, ele afirma: “cada sacramento expressa e põe em prática a proximidade do próprio Deus que, de modo absolutamente gratuito, nos toca por meio de realidades materiais… que Ele assume ao seu serviço, fazendo deles instrumentos do encontro entre nós e Ele mesmo.”[2]

Mergulhados na responsabilidade de Repensar a Pastoral da Igreja em Portugal, muita coisa deve mudar na acção pastoral com os doentes.

Todavia, o auxílio eclesial aos enfermos não se cinge somente a estes Sacramentos, administrados pelos presbíteros. Os leigos também podem e devem “salvar” muitos enfermos através do que, sinteticamente, se chama de virtude da compaixão!

Assim sendo, ter compaixão é recordar o milagres das curas e a Paixão de Cristo que terminou na Cruz. Ter compaixão é reconhecer que o sofrimento do outro também é o meu sofrimento. E ter compaixão é partilhar esse sofrimento alheio através da nossa oração, caridade, palavra, escuta e presença (companhia).

Ou seja, o que aquela criança fez foi muito simples: apenas recordou ao seu avô que a sua doença não lhe retira a sua dignidade, nem o lugar que tem no coração de Deus!

4. Com isto, estaremos, entre outros aspectos, a curar aquela que, segundo Henri Nowen, é a doença mais dolorosa da sociedade actual: a solidão.[3]
Como dói ver notícias de homens e mulheres que se abandonam à sua incapacidade, à sua deficiência, à sua doença… homens e mulheres que deixaram de acreditar em si e em Deus… homens e mulheres que se contentam com respostas rápidas, com brilhos passageiros... homens e mulheres que decidiram ser vítimas e não cooperadores da criação… homens e mulheres desaproximados, incapazes de ouvir o anseio mais profundo do coração!

Desculpem a franqueza e que, sem rodeios, afirme que a Pastoral da Saúde tem de ser um caminho para a nova-evangelização, ou seja, um instrumento peculiar para manifestar a beleza do amor de Deus. Aliás, o teólogo Anselm Grün escreve: “na doença, consigo descobrir o espaço interior do silêncio, aquele onde Deus habita em mim. É lá que me sinto curado e pleno. A doença não tem acesso a esse espaço.”

Este Encontro Nacional da Pastoral da Saúde deve, por isso, ser um ponto de partilha, reflexão e criatividade para que muitos descubram na enfermidade a presença do amor divino, de modo a que proclamem jubilosamente como o salmista: “Louvado sejais, Senhor!” Isoladamente,eles não serão capazes de fazer essa descoberta.

Daí que a comunidade cristã tenha de discernir caminhos de presença efectiva para que o rosto do autêntico amor não permaneça oculto. Os cristãos não podem ignorar o sofrimento alheio. Há sinais que parecem de abandono de Deus, os quais devem ser preenchidos por gestos de muita solicitude e ternura. E, se olharmos para os cuidados que oferecem as estruturas de saúde, não podemos permitir a nossa insensibilidade perante burocracias exageradas, desatenções quase inconscientes ou simples preocupações economicistas para evitar prejuízos e facturar lucros. Aí o cristão deve ser sempre gerador de esperança.

Se é tarefa de todos, os profissionais de saúde não podem esquecer a sua identidade cristã. Talvez não necessitem de etiquetas para se afirmarem. O silêncio da dedicação e serviço de entrega pode marcar a diferença, mesmo sem se usar palavras.

5. Para terminar, a primeira leitura relatando-nos uma jornada missionária de Saulo e Barnabé, vem confirmar tudo quanto referi e, por isso, permiti-me que agradeça àqueles “ministros da esperança”, que nas suas comunidades visitam e acompanham gratuitamente os doentes. Esses homens e mulheres silenciosos, voluntários ou profissionais que, “muitas vezes sem mencionar o próprio nome de Cristo”, O manifestam concretamente, fazendo com que “a palavra de Deus cresça e se multiplique”. Eles são muitos, mas poderão ser ainda mais!

Que a Senhora de Fátima, conforte e anime os agentes da Pastoral da Saúde, que apenas querem continuar o gesto salvífico de Cristo junto daqueles que vivem na enfermidade. Porque também se pode ser feliz na enfermidade.

[1] Pedrosa Ferreira, Nem só de pão vive o homem, 72.

[2] Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial do Doente 2012, 1.

[3] Henri Nowen, O curador ferido, 105.

                                                                             + Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

                                                                     Santuário de Fátima, 2 de Maio de 2012