Serra Leoa precisa de ajuda para renascer

A presidenta da Comissão Eleitoral fala com a agência Zenit

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FREETOWN, segunda-feira, 3 de setembro de 2007 (ZENIT.org).- As eleições de 11 de agosto em Serra Leoa, ainda envolvida em uma guerra que dura onze anos, foram as primeiras desde o abandono do país do contingente de paz de Nações Unidas.



Os habitantes esperam agora o segundo turno, em 8 de setembro próximo, entre os dois principais candidatos presidenciais, já que nenhum dos sete aspirantes à presidência alcançou a maioria necessária no primeiro turno. Após alguns episódios de violência, entrou em vigor o toque de recolher.

O presidente que sai anunciou que poderia pedir poderes extraordinários para enfrentar os novos possíveis choques entre os partidários de cada candidato.

Zenit entrevistou Christiana Thorpe, chefe da Comissão Eleitoral, que, como ministra da Educação, introduziu um novo sistema educativo e depois se distinguiu como impulsora da promoção das mulheres e da educação das meninas e jovens.

Católica praticante, Thorpe afirma que assumiu a nomeação de presidir a Comissão Eleitoral – é a primeira mulher em Serra Leoa que recebe esta nomeação – como um «desafio».

«As eleições, para muita gente, são só uma questão de ir votar, mas não é só isso. Votar é só o último elo de uma série de atividades e compromissos. Para realizar as eleições, é preciso estabelecer fronteiras, fazer um censo e o registro dos eleitores, com listas verificadas minuciosamente, e uma educação dos eleitores», explica.

«Também é preciso preparar as pessoas para que as eleições se realizem de forma profissional – acrescenta. Os candidatos devem ser nomeados e precisam de tempo para convencer os eleitores. Toda esta preparação exige muito tempo. E muito trabalho.»

Thorpe revela que se fez o maior esforço possível por respeitar os padrões internacionais.

«Viemos de uma guerra e precisamos da assistência internacional para avançar em muitos aspectos. Se, em conseqüência, as eleições não respeitarem um só dos padrões internacionais, não obteremos a ajuda e a assistência que buscamos.»

Quanto à maturidade política de Serra Leoa, Thorpe sublinha a necessidade de «educar os eleitores em tudo o que se refere ao processo eleitoral».

«O processo democrático não tem nada a ver com a violência, a linguagem abusiva, a competição, no pior sentido do termo. É eleger uma pessoa que nos guie e que nos introduza no circuito internacional, de forma que também nós possamos ser considerados uma nação civil.»

Sobre sua luta pessoal a favor dos direitos fundamentais das mulheres, Thorpe afirma ter estado sempre interessada por ela: «Em todos os lugares onde estive, trabalhei em questões de desenvolvimento e de pessoas desvalorizadas, sobretudo de mulheres e moças. E, dado que tenho uma predisposição natural para o ensino – e a educação em geral – estou contente de ter passado à informação».

Thorpe recorda que aderiu ao Foro para a Instrução das Mulheres Africanas (Fórum for African Women’s Education, FAWE) em 1995, quando era ministra de Educação e participou de uma conferência em Genebra, reunindo-se com membros de Nairobi (Quênia).

A idéia era fundamentalmente educar as mulheres da África, cuja taxa de analfabetismo era então de 70%.

«Vi que meus ideais coincidiam com meus interesses, então aproveitei a oportunidade –confessa. Quando voltei, em março de 1995, encontrei mulheres que pensavam da mesma forma e começamos a trabalhar para criar a organização.»

«Foi um êxito, útil sobretudo na guerra, durante a qual pudemos assistir milhares de moças jovens que haviam sofrido terrivelmente naquela carnificina», acrescenta.

«Quanto às mulheres que foram estupradas, seria preciso assegurar-lhes que podem começar a viver de novo, apesar de todas estas dificuldades», conclui.