Simbologia do momento

A presença dos cardeais brasileiros no Pontifício Colégio Pio Brasileiro em Roma

Roma, (Zenit.org) Pe Geraldo Maia | 1379 visitas

A Igreja Católica vive um momento simbólico. A renúncia do Papa e a realização do Conclave, diante de desafios surpreendentes, sinalizam que não estamos em ritmo comum, ordinário. Penso que só daremos conta de interpretar satisfatoriamente este momento histórico com o passar dos anos, assim como acontece com os acontecimentos importantes da história.

Morar em Roma, mais especificamente no Pontifício Colégio Pio Brasileiro, constitui uma graça especial. Além de ser ambiente para padres estudantes de pós-graduação em várias dimensões das ciências humanas e religiosas, por aqui passam muitos bispos e lideranças da Igreja. Nesses dias de preparação ao Conclave três dos cardeais eleitores do Brasil estão hospedados conosco. É interessante conviver com eles, observá-los, escutá-los. Tomamos refeições juntos e rezamos juntos. Numa noite dessas, eles se reuniram conosco, não para violarem o estado de silêncio a que estão submetidos, mas para dialogarmos de maneira fraterna. Naturalmente não expuseram conteúdos dos debates das Congregações gerais. Apresentaram-nos a repercussão dos acontecimentos eclesiais no Brasil e suas experiências no serviço prestado à Igreja. Pudemos também apresentar nossos questionamentos em busca de esclarecimentos. Assim, estamos tendo a oportunidade de sentir mais de perto a atmosfera dos preparativos para a escolha do novo Papa.

Sinalização sintomática é a presença de expressivo número de profissionais da imprensa mundial cadastrada para cobrir esses eventos. Há alguns dias falava-se em mais de cinco mil. Certamente esse número vem crescendo. O mundo inteiro está voltado para o Vaticano. Suspeito que nunca uma porta foi fechada diante de tantas câmaras como o foi no crepúsculo do dia 28 de fevereiro, em Castel Gandolfo. Não menor será o número de câmaras apontadas para a chaminé instalada nos telhados da Capela Sistina, na expectativa de capturar os primeiros sinais da fumaça branca que comunicará ao mundo a eleição do novo Papa. Dali essas câmaras terão seus focos dirigidos para a Loggia di San Pietro, o balcão da Basílica de São Pedro, no qual surgirá a figura do Pontífice eleito, ao anúncio do “Habemus papam”.

Pois bem, essa expressiva presença da mídia sinaliza que a Igreja não está convalescendo, muito menos morta, como profetas do mau agouro insistem em anunciar. A Igreja está viva! Portadora da mensagem evangélica, ela tem uma palavra importante para dirigir ao mundo. E este diálogo, assumido pelo Concílio Vaticano II, é imprescindível e inadiável. Este é o “diálogo da salvação”, como acentuava o papa Paulo VI, em favor do ser humano, travado com as várias denominações cristãs, com as diversas religiões e com os não-crentes; com o mundo das ciências, das filosofias e das variadas culturas; com a sociedade, a política e a economia. Todos esperam, ansiosos, não só a palavra de vida e de esperança, mas a capacidade acolhedora do saber escutar e de ser acolhido pela Mãe Igreja, que é, “como que sacramento universal de salvação” (LG 1).

Aqui na Europa atravessamos longo e rigoroso inverno. Eis que agora se despontam os primeiros sinais da primavera. Na aurora, os pássaros cantam alegremente saudando o tempo novo que se irrompe. As plantas começam a revestir-se com sua roupagem de festa e alegria, cobrindo, com folhas e flores, o despojamento da nudez invernal... Gradativamente, as temperaturas vão aumentando, tornando os dias menos frios e mais calorosos. Acolhemos estes sinais de esperança da mãe natureza para anunciar ao mundo que esta é nossa esperança para os tempos novos da Igreja. É a vida nova da Páscoa que já se desponta no horizonte próximo para delinear, no rosto do ser humano, o fascínio e a alegria de quem acolheu a salvação daquele que é o Encarnado-crucificado-ressuscitado, na ação do Espírito Santo que sopra onde quer.

*Padre Geraldo Maia, sacerdote da Arquidiocese de Uberaba,é doutorando em teologia.