Simples criação de instituições não garante o desenvolvimento humano

Segundo Dom Walmor de Azevedo, não se pode privar da referência à vida eterna

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Por Alexandre Ribeiro

BELO HORIZONTE, sexta-feira, 17 de julho de 2009 (ZENIT.org).- O arcebispo de Belo Horizonte (Brasil), Dom Walmor Oliveira de Azevedo, afirma que a simples criação de instituições não garante o desenvolvimento da humanidade; há a necessidade de Deus e da visão transcendente da pessoa.

Ao comentar a nova encíclica de Bento XVI, Caritas in veritate, em artigo enviado a Zenit hoje, o arcebispo destaca a perspectiva da compreensão do desenvolvimento humano em referência à totalidade da pessoa.

“Isto é, a consideração de todas as suas dimensões. Nessa perspectiva, pois, não pode riscar a referência à vida eterna, sob pena de o progresso humano, diz o Papa, ficar privado do respiro. As consequências são nefastas por fechar o homem dentro da história, sujeitando-o ao risco de reduzir-se ao incremento do ter.”

“Daí vem o comprometimento da capacidade imprescindível de se permanecer disponível para os bens mais altos, para iniciativas altruístas que a caridade universal solicita”, afirma Dom Walmor.

Segundo o arcebispo, Bento XVI enfatiza na encíclica que o homem não se desenvolve apenas com suas próprias forças. “É uma ilusão pensar, como tem ocorrido ao longo da história, que a criação de instituições seja o suficiente para a garantia do desenvolvimento da humanidade”.

“De fato, conclui o Papa, as instituições sozinhas não são suficientes, porque o desenvolvimento integral é primariamente vocação e exige um assumir livre e solidário da responsabilidade de cada um por todos.”

“A necessidade de Deus e a visão transcendente da pessoa compõem a compreensão ajustada do desenvolvimento, ultrapassando e alargando o horizonte que se alcança apenas com os dados sociológicos”, assinala.

Dom Walmor explica, no contexto da encíclica, que, “sem Deus, o desenvolvimento ou é negado ou fica confiado unicamente às mãos do homem, levando-o a cair na presunção da auto-salvação e na produção de um desenvolvimento desumanizado”.

“O encontro com Deus, assim, se torna alavanca importante do desenvolvimento integral enquanto evita, sublinha Bento XVI, ver no outro sempre e apenas o outro, tornando-se capaz de ver nele a imagem divina, alcançando uma adequada compreensão dele e criando possibilidades de maturação de um amor que se torna cuidado do outro e pelo outro.”

O arcebispo de Belo Horizonte recorda que já na Populorum Progressio, o Papa Paulo VI focalizava que o progresso é, na sua origem e na sua essência, uma vocação.

“Entender o desenvolvimento como vocação, retoma o Papa Bento XVI, equivale a reconhecer que ele nasce de um apelo transcendente e que por si mesmo não pode, adequadamente, atribuir-se o significado último.”

“Este entendimento continua atual e, levado a sério, pode abrir horizontes novos para os gravíssimos impasses que estão configurando o cenário contemporâneo. Basta pensar a contradição inconsequente que se verifica quando se pensa a grandeza dos avanços tecnológicos e científicos e a incapacidade de superação das vergonhosas situações de exclusão social”, afirma.

“A pessoa não pode ser reduzida à categoria de meio para o desenvolvimento. Há uma gravíssima responsabilidade imputada a cada pessoa no uso de sua liberdade à luz da consciência de sua vocação. O desenvolvimento é, na verdade, a busca de ser mais.”

Mas o que significa ser mais? –questiona Dom Walmor–, que indica que “o Papa Paulo VI já respondia que a característica do desenvolvimento autêntico é de que este deve ser integral”.

“Isto é, promover todos os homens e o homem todo. É o desafio ao desenvolvimento da integralidade da humanidade”, afirma.

Segundo o arcebispo, Bento XVI lembra a indicação do Papa Paulo VI: ‘o que conta é o homem, cada homem, cada grupo de homens até se chegar à humanidade inteira’. “É o verdadeiro caminho para o progresso dos povos”, destaca.