Simpósio ecumenismo e missão - testemunho cristão em um mundo plural

Partilha do Simpósio Nacional Ecumenismo e Missão 2014

Brasília, (Zenit.org) Redacao | 592 visitas

Testemunho cristão em um mundo plural. Foi com esse lema que aconteceu o Simpósio Ecumenismo e Missão. O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) promoveu o evento, que aconteceu, na Mariápolis Ginetta,  em Vargem Grande Paulista (SP), entre os dias 21 e 24 de agosto, organizado em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e com as Comissões do Ecumenismo, do Laicato e da Ação Missionária da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Igrejas participantes

O Simpósio foi aberto com uma celebração que teve a participação das igrejas participantes do CONIC, a saber: Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil; Igreja Episcopal Angricana do Brasil; Igreja Católica – CNBB; Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, Igreja Ortodoxa Síria.

Com momentos de espiritualidade, houve um resgate da caminhada histórica do movimento ecumênico no Brasil, recordando a Conferência do Nordeste e o Concílio Ecumênico Vaticano II.

Conferência do Nordeste

O pastor da Igreja Luterana no Brasil, Zwinglio Motta Dias, destacou a importância da Conferência do Nordeste para o mundo protestante no início dos anos 60. A Conferência do Nordeste aconteceu no Recife em 1962 dentro de uma conjuntura internacional peculiar e foi um momento significativo que trouxe à tona os esforços de mobilização social. Pela primeira vez, na história do protestantismo, os protestantes contaram com apoio da academia.  Destacou que o protestantismo não foi capaz de perceber a dimensão social, cultural e nacional que era muito diferente dos Estados Unidos. Foi o desafio da realidade – injustiça e luta social – que levou a compreensão de um ecumenismo político. Muito mais por jovens das igrejas que dos setores institucionais. A Conferência do Nordeste foi derrotada pelas igrejas. Após o Golpe Militar voltou-se a velha pequenez de um moralismo inconsequente que fechava-se a Graça do Cristo. Mas o Brasil democrático, hoje, só se tornou possível por causa das pequenas lutas do passado.

Caminhada histórica além da Conferência do Nordeste

O professor Joanildo Burity, da Fundação Joaquim Nabuco, enfatizou a caminhada histórica destacando além da Conferência do Nordeste (1962), o  Evangelho Social (1914), o Socialismo Religioso (1919), a Igreja Confessante (1938), a “Sociedade Responsável” (Assembleia constitutiva do CMI 1948). Depois de 1962 caminha-se para uma conjuntura de virada pentecostal. Os pentecostais se posicionaram na invisibilidade (anos de 1950) à minoritização (anos 1980) e à hegemonia do campo protestante (anos 2000). Considera-se também a fragmentação da geração ecumênica e de sua elaboração teológico-política. Cria-se muitos grupos que procuram viver um ecumenismo debaixo do guarda-chuva do catolicismo libertador. Também o impacto da pluralização: ideologias, identidades, diversidade religiosa, impactos da globalização. Nas igrejas protestantes quase se conseguiu evacuar a presença de geração ecumênica. Outra geração ecumênica vai chegando, mas de maneira diferente. Exige-se uma nova postura de diálogo. O ecumenismo passa a ser apenas um aspecto. Não é mais como antes: a luta contra o sistema. Constata-se também a desterritorialização do cristianismo. O movimento ecumênico coloca-se dentro de um novo contexto. Há um claro movimento para o Norte. Proporcionado pelo movimento pentecostal. Na realidade há um movimento do Sul para o Norte. Vivemos hoje um desafio. A pergunta é a seguinte: sem carismáticos e pentecostais haverá futuro ecumênico? A resposta é não. Mesmo no movimento ecumênico há presença carismática e pentecostal. Nesse redesenho global, atual, o movimento carismático e pentecostal é central. Como fazer não sabemos. Estamos nas mãos do Espírito.

Linhas mestras do discurso de João XXIII na abertura do Vaticano II

O padre Oscar Beozzo destacou que após a celebração de encerramento da Semana de Oração pela unidade dos cristãos, na Basílica de São Paulo Extramuros, o inesperado anúncio do Concílio por João XXIII: 25 de janeiro de 1959. “Pronuncio perante vós, por certo tremendo um pouco de emoção, mas ao mesmo tempo com humilde resolução de propósito, o nome e a proposta de duas celebrações: um Sínodo diocesano para a Urbe e um Concílio geral para a Igreja universal”. Destacou que João XXIII fez o discurso de abertura (Gaudet Mater Ecclesia) onde propõe algumas linhas mestras. Vejamos:

Atitude confiante e positiva - afastando-se dos profetas da desventura que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo (IV.3). Mas a serena apresentação da verdade. A Igreja deve  responder às exigências do nosso tempo. Uma coisa é a substância do “depositum fidei”, isto é, as verdades contidas na nossa doutrina, e outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes, contudo, o mesmo sentido e o mesmo alcance (VI.5). Busca ecumênica pela unidade dos católicos, dos cristãos, dos fieis de religiões não cristãs e de todo gênero humano. Veneráveis irmãos, isto se propõe o Concílio Ecumênico Vaticano II, que, ao mesmo tempo, que une as melhores energias da Igreja e se empenha por fazer acolher pelos homens mais favoravelmente o anúncio da salvação, como que prepara e consolida o caminho para aquela unidade do gênero humano, que se requer como fundamento necessário para que a cidade terrestre se conforme à semelhança da celeste «na qual reina a verdade, é lei a caridade, e a extensão é a eternidade (VIII.4). A Igreja sempre se opôs a estes erros; muitas vezes até os condenou com a maior severidade. Agora, porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que renovando condenações (VII.2). Será preciso atribuir muita importância a esta forma e, se necessário, insistir com paciência, na sua elaboração; e dever-se-á usar a maneira de apresentar as coisas que mais corresponda ao magistério, cujo caráter é prevalentemente pastoral(VI.5). Que o Concílio corresponda às necessidades e esperanças dos diversos povos. Queira o céu que as vossas canseiras e o vosso trabalho, para o qual se dirigem não só os olhares de todos os povos, mas também as esperanças do mundo inteiro, correspondam plenamente às aspirações universais (IX.4).

Assim o padre Oscar Beozzo destacou que é fundamental olhar para essa caminhada longa da igreja que se abriu para o diálogo com o mundo. Destacou que em 05 de junho de 1960 – surge o secretariado para a unidade dos cristãos que teve  como secretário o Cardeal Agostinho Bea. Isso foi uma porta da igreja para o diálogo porque até então a igreja não tinha uma interlocução com as igrejas cristãs.

Análise e diagnóstico dos desafios da Missão

Debates a partir das temáticas expostas conduziram para outro momento em que foram apresentados uma análise e um diagnóstico dos desafios para a Missão. Este momento teve a contribuição da Ir. Ignes Costalunga que refletiu sobre a complexidade do mundo em que vivemos. Perguntava o que há em nossas instituições? O que significa fé sim, Instituição não? Também o pastor Roberto Zwetsch enfatizou que em relação ao Brasil, dever-se-ia perceber a grande ascensão de igreja Católica e também de igrejas do protestantismo histórico. Enfim, todas essas alterações têm consequências para a prática do ecumenismo e da missão.

Documento "Testemunho Cristão num mundo plural"

O documento “Testemunho Cristão num mundo plural” – recomendações sobre a prática do testemunho - foi objeto de estudos para trabalhos em grupos. O documento foi apresentado pelo pastor Walter Altmann que destacou a importância do mesmo que, pela primeira vez na história, foi elaborado em conjunto pelo Conselho Mundial de Igrejas, pelo Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso e pela Aliança Evangélica Mundial. No final da explanação do documento lançou-se três perguntas que fez refletir sobre a relação entre missão e ecumenismo. As questões chamaram atenção para o contexto plural, as agendas múltiplas, os direitos humanos, sociais, culturais, econômicos e ambientais. Se perguntava, como questão fundamental, o que precisamos mudar em nossas compreensões missionárias, eclesiológicas.

Palestras com os temas “Bíblia e missão” e “Missão e ecumenismo: documentos, perspectivas de ação comum” foram os últimos elementos trabalhados para elaboração de um documento comum entre os participantes com o título “Testemunho Cristão brasileiro em um mundo plural”.

A professora Wanda Deifelt apresentou o tema revisitando metodologias missionárias a partir dos Atos do Apóstolos. Lembrou o (des)encontro entre as religiões a partir de John Hick que menciona três modelos de interação: exclusivismo (onde o outro é demonizado e deve ser subjudado à verdade da religião dominante ou colonizadora), inclusivismo (onde as aspectos de outras tradições religiosas ou filosofias de vida são interpretadas como expressões insipientes da religião dominante), pluralismo (onde há uma diálogo interreligioso enfocando nos aspectos mais comuns/compartilhados, ou seja, aquilo que nos une e não o que nos separa).

Uma nova experiência de Deus não vem com a razão, mas vem pelos pés

O biblista Carlos Mesters nos ajudou a responder a questão de como anunciar Deus hoje. Dizia que uma nova experiência de Deus não vem com a razão, mas vem pelos pés. Muito mais que falar sobre Deus é viver a maneira de Deu. A Boa Nova é descobrir o rastro de Deus. Para agir no mundo é preciso olhar de perto como Jesus foi “missionário de Deus”. Alguns traços fundamentais de Jesus que passam a ser elementos fundamentais para a missão cristã no mundo. Vejamos: Jesus acolhe os excluídos, sobretudo os doentes; Jesus vai ao encontro da pessoas e chama para segui-lo; Jesus reconstrói a vida comunitária nos povoados da Galiléia; Jesus recupera a dimensão caseira e festiva da fé; Jesus recupera a igualdade entre homem e mulher; Jesus supera as barreiras de gênero, religião, raça e classe; Jesus recupera o humano universal. Carlos Mesters fez uma reflexão sobre a prática missionária na época do cativeiro bíblico e hoje. Por fim termina concluiu dizendo que é preciso tirar o véu para revelar o Reino de Deus.  

Conclusão do simpósio: "Cada Igreja invista na formação ecumênica dos leigos e leigas, assim como na dos clérigos"

Na parte final do simpósio foi feito um trabalho de grupo para ler e destacar elementos para um testemunho cristão num mundo de pluralismo religioso. Destaco o relato de um dos grupos que nos dá a noção por onde andou a conclusão do simpósio. Vejamos: definir preliminarmente conceitos de ecumenismo e missão; tomar em conta as iniciativas que as bases já realizaram, dando-lhes apoio, reconhecimento e incentivo; recolher experiências e iniciativas que foram apresentadas no Seminário. Estas podem ajudar na compreensão tanto do ecumenismo como da missão;

Foi enfatizada a necessidade de as Igrejas reconhecerem, de maneira mais ampla e autorizada, os ministérios femininos e que implementem a participação  das mulheres em todas as esferas de decisão das Igrejas;

Cada Igreja invista na formação ecumênica dos leigos e leigas, assim como na dos clérigos. Que os que ensinam na área do ecumenismo e do diálogo inter-religioso tenham também uma prática  neste mesmo campo do ecumenismo e do diálogo com outras religiões; 
Que regiões, dioceses e até mesmo paróquias e comunidades tenham pessoas ou comissão responsável pelo diálogo ecumênico e por iniciativas conjuntas com outras Igrejas e Religiões; Recomendamos que todas as Igrejas e membros fraternos aqui presentes coloquem o Documento “Testemunho Cristão” nos seus sites e blogs; Seria bom que  nalgum lugar do documento, por iniciativa do CONIC, seja inserido um adendo sobre a importância da equidade de gênero no diálogo ecumênico e inter-religioso.  

Uma celebração ecumênica com destaque para a unidade na diversidade, concluiu o Simpósio Ecumenismo e Missão - Testemunho cristão em um mundo plural. Promovido pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), com apoio das Comissões para o Ecumenismo, Laicato e Ação Missionária da CNBB e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/PR), o evento reuniu cerca de 100 representantes de diversas igrejas cristãs, em Vargem Grande Paulista (SP). A pastora Rome Bencke, secretária-geral do CONIC agradeceu a todos no final da celebração e disse “que todo material do Simpósio será estudado com carinho, mas que fazendo um discernimento com a coordenação do Simpósio, achou-se por bem,  por vários motivos, não elaborar um documento final neste momento. Fiquemos atentos ao Espírito que sopra onde, quando e como quer”.

Vale destacar que dois eventos que devemos nos empenhar de maneira particular. O primeiro é a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos que acontecerá em 2015 e será preparado pelo Brasil. Será uma contribuição do Brasil para o mundo. O segundo é a Campanha da Fraternidade de 2016 que voltará a ser ecumênica. Com esses comunicados nos abraçamos e voltamos para nossas casas na disposição de lutar pela unidade dos cristãos e agir em favor do diálogo entre as religiões.   

[Texto de Artur Peregrino]