Sínodo: a Palavra não é um texto escrito

Entrevista com Dom Filippo Santoro, bispo de Petrópolis (Brasil)

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Por Alexandre Ribeiro

PETRÓPOLIS, terça-feira, 30 de setembro de 2008 (ZENIT.org).- «Espero que o Sínodo diga claramente que a Palavra não é um texto escrito, mas um fato, uma pessoa viva, o Verbo feito carne, que entra na nossa história, nos abraça e nos salva», afirma o bispo de Petrópolis, Dom Filippo Santoro.

Dom Filippo faz parte do Conselho Permanente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e da Comissão para a Doutrina da Fé da CNBB. Foi nomeado membro da assembléia do Sínodo diretamente por Bento XVI, junto com o cardeal de São Paulo, Dom Odilo Scherer, e o arcebispo de Aparecida, Dom Raymundo Damasceno Assis. Ele concedeu esta entrevista a Zenit às vésperas de sua viagem a Roma.

–Que expectativas o senhor tem perante o Sínodo da Palavra de Deus?

–Dom Filippo Santoro: O Sínodo é um grande momento de comunhão dos Bispos com o Santo Padre e entre eles e por isso mesmo é uma graça especial para toda a Igreja, como quando na Antigüidade os Apóstolos se reuniam entre eles para renovar sua fidelidade ao Senhor e ao seu mandato de anunciar a Palavra até os extremos limites da terra. Por isso, fico muito grato ao Santo Padre por poder participar deste momento intenso de comunhão que será de grande riqueza para as nossas igrejas católicas do Brasil neste momento em que estamos lançando em todas as Dioceses a Missão Continental.

O tema da Palavra de Deus tem uma importância toda especial, porque a Igreja nasce do anúncio e se alimenta da Eucaristia e da Palavra. Justamente depois do Sínodo sobre a Eucaristia, celebrado em 2005, celebramos o Sínodo da Palavra de Deus.

–Vê algum ponto prioritário diante da amplitude do tema?

–Dom Filippo Santoro: Em primeiro lugar, espero que o Sínodo diga claramente que a Palavra não é um texto escrito, mas um fato, uma pessoa viva, o Verbo feito carne, que entra na nossa história, nos abraça e nos salva. Um texto, um livro não pode salvar; a não ser que seja o instrumento que testemunha e comunica um fato. As pessoas desejam uma resposta às suas inquietações e suas perguntas e, sobretudo, desejam ser amadas, como aconteceu aos Apóstolos ao longo do Mar da Galiléia. Os evangelhos documentam os fatos e como progressivamente as pessoas ficavam envolvidas e fascinadas com o Filho do carpinteiro e o seguiam.

Este ponto é o mais importante de todos porque ronda também na Igreja católica uma tentação típica de certos ambientes protestantes que consideram a Palavra em si, como se não fosse uma pessoa de carne e sangue, mas uma filosofia ou uma ideologia que pode ser interpretada segundo o gosto de cada um.

–Um advertência às interpretações individualistas...

–Dom Filippo Santoro: O Sínodo deverá reafirmar que a Palavra, presença atual do próprio Cristo, cria a Igreja e determina a sua unidade. Isso ajuda a superar as interpretações invidualistas da Palavra que a separam do Corpo de Cristo como se fosse uma teoria da qual eu assumo a meu bel-prazer o que quero. 

Particularmente graves são duas tendências indicadas pelo “Instrumentum Laboris” (o instrumento de trabalho) que nós recebemos em preparação ao Sínodo: o fundamentalismo e a leitura ideológica. O Fundamentalismo cristão afirma que a sagrada escritura deve ser lida e interpretada literalmente em todos os seus detalhes sem considerar que a Palavra de Deus foi escrita, sob inspiração divina, por autores humanos e linguagem humana própria de um determinado tempo com detalhes históricos e científicos que não constituem o centro da mensagem. As “leituras ideológicas” da Palavra de Deus estão ligadas a utilizar aspectos da Sagrada Escritura para justificar posições culturais e políticas, fruto de reflexões puramente humanas que não têm origem numa verdadeira experiência de fé.

–O Sínodo tem também uma dimensão missionária?

–Dom Filippo Santoro: O Sínodo deve favorecer e lançar com renovado vigor a proposta missionária tal como a podemos encontrar na V Conferência do Episcopado Latino-americano de Aparecida. A Palavra feita carne pode ser comunicada a todos. O anúncio fascinante é que, depois de sua morte, os discípulos encontraram novamente o Senhor, vivo e ressuscitado. Este fato único que muda o curso da história foi encontrado também pelas mulheres, por Paulo e pelas gerações sucessivas até chegar a nós. A Palavra vive na “traditio”, na tradição da Igreja e pode ser comunicada a todos. Este Sínodo vem fortalecer a experiência de comunhão das nossas dioceses e a dinamizar a Presença missionária da Igreja na sociedade.

Ao homem de hoje, desnorteado e decepcionado como os Discípulos de Emaús, o Sínodo oferece de novo a presença do Senhor vivo, que caminha conosco como um amigo e nos fala. Ilumina a razão e aquece o coração. O Sínodo é uma grande promessa para todos os que buscam a felicidade plena e não apenas para os católicos.