Só um Estado civil poderá salvar os cristãos do Oriente (2)

Entrevista com Samir Khalil, jesuíta e especialista em Islã

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Por Robert Cheaib

ROMA, terça-feira, 2 de novembro de 2010 (ZENIT.org) – O êxodo dos cristãos do Oriente Médio é um dilema, mas pode ser também um kairos, com a condição de que os cristãos mantenham vivo o fogo da fé em seus corações. 

Nesta segunda parte da entrevista, o padre Samir Khalil explica a necessidade da presença cristã no Oriente Médio.

ZENIT: O Oriente elegeria a proposta islamista desiludido pelo fracasso religioso, moral e de identidade do Ocidente?

Samir Khalil: O Ocidente, para dizer a verdade, foi muito longe, até dissolver as raízes de sua própria identidade. Recordemos o discurso do Papa em Ratisbona, em 2006, onde a crítica era essencialmente à cultura ocidental, que foi além do Iluminismo, até identificar a cultura com o materialismo.

Em referência à força do Islã integrista, o raciocínio dele é o seguinte. O Ocidente tem um projeto de civilização, mas seu modelo é de corrupção: a perversão e a libertinagem sexual, o adultério, a dissolução da família, o aborto... trata-se de um projeto inaceitável para o Islã, que o vê como corrupto e afastado de Deus. A modernidade pregada pelo Ocidente já é sinônimo de ateísmo e imoralidade. Para eles, o cristianismo, identificado por sua vez com o Ocidente, está acabado. Da mesma forma, o marxismo e o socialismo fracassaram aos olhos de todos. A solução é o Islã, e a prova é que quando no passado aplicamos o Islã ao rigor da letra, conquistamos todo o Mediterrâneo. Esse foi o raciocínio que Gaddafi fez quando visitou a Itália recentemente: “a Europa em 2050 será de maioria muçulmana”. Sua previsão se tornará realidade se a atitude dos cristãos não mudar.

ZENIT: Acredita que a situação atual do Oriente Médio, que está causando a fuga dos cristãos, pode ser um sinal dos tempos?

Samir Khalil: Muitas pessoas no Oriente Médio me dizem: “ficar aqui é cada vez mais difícil. E ainda que consigamos, não sabemos no entanto como será para nossos filhos”. Eu dou uma resposta em três pontos: em primeiro lugar, ninguém pode obrigá-lo a ficar. Cada família tem direito de decidir onde viver e como. Acrescento, no entanto, um segundo ponto: se no âmbito pessoal talvez seja melhor para você emigrar para o Canadá, a Austrália ou a França, não o é no âmbito comunitário e geral: se todos fizessem como você, esta região se encontraria sem cristãos; precisamente na terra do nascimento do cristianismo já não teria cristãos. Temos portanto uma grande vocação e responsabilidade. O terceiro ponto: se nos encontramos todos na diáspora, poderemos ainda manter nossa identidade oriental? É difícil manter a cultura e a tradição de origem mais de duas ou três gerações. E isso, novamente, não é um problema pessoal, mas um problema no âmbito da Igreja universal: se uma tradição oriental desaparece, isso constitui para a Igreja uma grande perda. João Paulo II dizia que a Igreja tem dois pulmões, a Igreja oriental e a Igreja ocidental. Se uma dessas realidades desaparece, a Igreja se reduziria a um só pulmão e lhe faltaria a respiração.

Portanto, digo aos cristãos: que emigrem ou fiquem, esta não é a verdadeira questão. O essencial é manter sua fé. Proponham a fé a seus filhos e a transmitam aos outros. 

ZENIT: Não seria necessário apoiar financeiramente os cristãos do Oriente para sua permanência?

Samir Khalil: Creio que nosso problema no Oriente Médio não é financeiro. Tomemos o caso do Líbano: no país, temos milionários em todos os bairros de Beirut. Há muitas obras de caridade no Líbano lançadas por cristãos. As ajudas vindas do exterior, chegam como parte de uma propaganda política que a Igreja não pode fazer, porque esta não é uma nação. E não existe nenhuma nação cristã para fazê-lo. Certamente os imigrantes podem ajudar, e sabemos que muitos contribuem para o sustento de seus familiares. Esta ajuda pode ser melhorada, mas não é isso que resolve o problema. É necessário um projeto, oferecer projetos claros e seguros, de maneira que o dinheiro que se pede aos benfeitores cristãos tenha um percurso identificável, e não sejam roubados em seu caminho para as obras concretas. E nisso nosso clero não dá bons exemplos de confiança, dado o apego pouco evangélico por aparências e riquezas. Portanto, soa novamente o apelo à conversão, a purificar nossa vida, para fazê-la mais consonante com o Evangelho.

ZENIT: O Sínodo recebeu pouca atenção da media. Há desinteresse pelo que a Igreja diz?

Samir Khalil: Me pergunto talvez se o fato não se deva simplesmente à presença de poucos jornalistas árabes que acompanham as notícias em Roma. Ou talvez tenham se perguntado: o que um bispo pode fazer para mudar a situação no Iraque, na Palestina ou no Líbano? Os católicos são uma pequena minoria no Egito, e portanto os coptas e os muçulmanos não se interessam por eles. Os únicos que podem seguir o Sínodo tanto por interesse como por capacidade são os jornalistas do Líbano.

Em relação aos jornais ocidentais, creio que partem de um conceito de consumismo: não confeccionam um produto se não sabem se venderá e trará lucro. Os chefes infelizmente não valorizam a importância dos temas e dos acontecimentos em si, mas se deixam condicionar pela audiência. Um furo de reportagem escandaloso ou sexual vende muito mais que um Sínodo que busca lentamente seu caminho. Algumas vezes a culpa é nossa. As pessoas não são informadas nem sobre os acontecimento nem sobre seu sentido, nem tampouco sobre sua importância. Creio que neste âmbito o Líbano faz muito: através de ZENIT, Télé Lumière ou Lbc. Esta contribuição mediática dá ao Líbano seu lugar de vanguarda para todos os cristãos no Oriente Médio.

ZENIT: Para concluir, quais serão as atitudes que farão frutífero o investimento de recursos humanos e econômicos neste Sínodo?

Samir Khalil: Creio que a atitude principal é a sinceridade e o senso crítico para discutir com franqueza e clareza o que não vai bem, o que está bem e o que precisa ser melhorado. Sobre a atitude que desejo para os cristãos do Oriente, creio que devem ter um olhar favorável. No fundo, no Sínodo, são investidos muitos recursos positivos: fala-se de milhares de horas de trabalho e cansaço, que implicam um grande número de pessoas empenhadas em fazer o melhor possível. Por isso, diria que a atitude correspondente dos cristãos deve ser a seriedade: trata-se de nosso futuro, não do futuro dos bispos, mas do futuro de vários milhões de cristãos e não só dos católicos. Em sua intervenção, o senhor Mohammad Sammak reafirmou o papel que os cristão tem tido em formar a identidade do Oriente Médio, afirmando que sem eles nossa sociedade já não seria o que é. Os cristãos tem tido na história passada e recente um papel fundamental, enriquecendo a sociedade árabe, cultural, sociológica, política e espiritualmente. Para que este papel não seja uma recordação do passado, mas uma realidade do presente, os cristãos – bispos e fiéis – devem privilegiar a comunhão – não só entre eles mas também com os demais, com os muçulmanos. E devem viver também a missão, não no sentido de um proselitismo descolorido, mas viver a essência do Evangelho, que é um anúncio, uma bela notícia, da qual nós, modestamente, somos herdeiros.