Somente a Igreja de Bento e de Francisco pode salvar-nos do pessimismo

Muitos dos que cedem ao falso pessimismo em relação ao ser, à vida e à Igreja, acabam caindo num falso otimismo em relação à moralidade

Roma, (Zenit.org) Pe. Anderson Alves | 1994 visitas

O ministério do Papa Francisco iniciou do mesmo modo como terminou o do Papa Bento XVI. A continuidade entre os dois é evidente não só na humildade, alegria, otimismo e fé que os caracterizam, mas também se refere à análise de algo que caracteriza a cultura atual: o pessimismo. No último encontro de Bento XVI com os seminaristas de Roma, ele disse que a Igreja deve combater tanto o falso pessimismo quanto o falso otimismo, e se referia à afirmação de que a época do Cristianismo passou e à posição de alguns que veem igrejas e seminários sendo fechados e pensam que tudo vai bem. Em vez disso, a razão iluminada pela fé nos faz ver que o futuro é de Deus, o futuro é dos cristãos. O Papa Francisco, por sua vez, disse no seu primeiro discurso que a Igreja “não pode ceder ao pessimismo, àquela amargura que o diabo nos oferece todos os dias”[i][i].

O falso pessimismo diz respeito não só à vida eclesial, mas está presente em boa parte da filosofia atual, a chamada “pós-modernidade”[ii]. Essa é uma forma de reação ao falso otimismo de certa modernidade, convencida de que vivemos “no melhor mundo possível” (Leibniz) e de que o progresso iniciado era ilimitado. E o progresso seria obra de uma razão autônoma que, independentemente da tradição, iluminaria a vida social, produzindo um bem estar progressivo. O resultado disso foi não só os avanços científicos e tecnológicos, mas também as ideologias, ou seja, os sistemas de pensamento que pretendiam possuir uma verdade total, a partir da qual pudessem interpretar e transformar toda a sociedade, independentemente da cultura judaico-cristã. As diversas ideologias não produziram uma sociedade perfeita, um paraíso sobre a Terra, mas sim as terríveis guerras mundiais, com seus milhões de mortos e a consequente descrença no poder da razão de alcançar a verdade e de organizar a vida social. Caiu assim o mito do progresso ilimitado e, com ele, o falso otimismo.

Depois dessa desilusão, surgiu a “pós-modernidade”, que tem uma relação ambívalente com a modernidade. Por um lado, aceita o ideal de autonomia da razão em relação à cultura judaico-cristã; por outro, critica a certeza moderna de se conseguir uma verdade absoluta, de se estabelecer regras universais de comportamento, caindo assim num total pessimismo[iii]. Se a modernidade tinha uma confiança absoluta na razão, capaz de ordenar a natureza (considerada “matéria caótica” e não mais “criação de Deus”[iv]), a pós-modernidade cede ao niilismo. O ser (e a vida) enquanto tal é mau, desordenado, e a razão humana não pode encontrar nele nenhum sentido. Vivemos no pior mundo possível.

Quem vive segundo a mentalidade “pós-moderna” analisa a vida da Igreja com os olhos ofuscados pelo pessimismo. De modo que tudo o que ocorre na Igreja deve ser, por força, mau e errado. Essa visão se torna popular, infelizmente, graças a importantes meios de comunicação, que acentuam escândalos puntuais (numa comunidade de mais de 1,2 bilhão de pessoas os escândalos são inevitávies) e silencia-se tudo o que é positivo. Por isso, não interessa o fato de que a Igreja Católica cresça 15 milhões de fiéis por ano[v]; nem mesmo é importante o fato de que mais de 100.000 cristãos são assassinados por ano por causa da própria fé[vi]. Também não importa que a Igreja Católica tenha em todo o mundo mais de 5.300 hospitais (sendo 1.150 na África), 18.000 dispensários para os pobres, 500 leprosários, 17.000 residências para anciãos e enfermos crônicos, 9.800 orfanatos, 34.000 centros de educação ou reeducação social. Para quem vive segundo o pessimismo, é melhor pensar no anel do Papa, como se esse tivesse sido roubado, e esquecer o fato de que a Igreja Católica seja a maior instituição de caridade do mundo. Como disse certa vez Bento XVI: “uma árvore que cai faz mais barulho do que todo um bosque que cresce”.

É interessante que muitos dos que cedem ao falso pessimismo em relação ao ser, à vida e à Igreja, acabam caindo num falso otimismo em relação à moralidade. E  criticam a vida moral dos cristãos a partir de argumentos que refletem valores cristãos: “se Cristo foi pobre, por que os cristãos não o são?” “Se Cristo foi casto, porque todos os padres não o são?” etc. Ao mesmo tempo, julgam que todo tipo de comportamento é bom e lícito: a moral cristã serve para acusar aos cristãos, mas não para ser levada a sério e vivida.

A conclusão a que chegam é que a Igreja deveria ser mais atual, mais “aberta ao mundo moderno”, como se a modernidade não tivesse sido superada há muito tempo[vii]. E assim um falso pessimismo em relação à bondade do ser, da vida, das religiões vem acompanhado com um falso otimismo moral. Tudo deve ser permitido, basta que se viva espontaneamente e que se busque uma felicidade que, no fundo, não existe.

O curioso é que os desafios atuais são os mesmos da época de São Bento e de São Francisco de Assis. Eles combateram culturalmente o maniqueísmo e a doutrina dos cátaros e albigenses, que eram negações do Deus criador de todas as coisas (e todas as coisas são boas) e da sua transcendência em relação ao mundo. A isso aqueles santos responderam que o Cristianismo afirma a bondade do ser, da matéria, pois tudo foi criado por um Deus que é Pai e que enviou ao mundo o seu Filho feito homem para redimi-lo. Dessa fé nasce um verdadeiro otimismo que vê o mundo como obra saída das mãos de Deus, e sempre governada por Ele. O mundo entendido como “criação” é dotado de sentido e deve ser cultivado, e não desfrutado[viii]. De modo semelhante, a modernidade e a pós-modernidade negam a transcendência e o poder de Deus, não considerando as coisas como fruto da sua bondade e racionalidade. A consequência foi identificar o mundo com Deus (Deus sive natura), criando assim um falso otimismo; ou separar o mundo de Deus, originando um falso pessimismo.

Por isso, só a Igreja de Bento e de Francisco pode despertar o homem das ilusões que ele mesmo criou. O mundo não se identifica com Deus, o progresso não é a obra necessária de um Espírito ou uma Matéria Absoluta (Idealismo, Maniqueísmo, Marxismo); por outro lado, o mundo não é uma obra-prima feita por ninguém, carente de sentido (Niilismo). O mundo é uma obra boa saída das mãos de Deus, e a Igreja é a responsável por levar a mensagem de redenção à nossa cultura, salvando-a tanto do falso otimismo otimismo do falso pessimismo.

Pe. Anderson Alves, sacerdote da diocese de Petrópolis – Brasil. Doutorando em Filosofia na Pontificia Università della Santa Croce em Roma.

[i] Cfr. http://www.news.va/pt/news/papa-francisco-aos-cardeais-nao-ceder-ao-pessimism

[ii] O falso pessimismo e o falso otimismo vem sendo analisado filosoficamente pelo filósofo francês Rémi Brague (1947), vencedor do prêmio Ratzinger 2012. Cfr. R. Brague, Ancore nel cielo. L’infrastruttura metafisica, Vita e Pensiero, Milano 2011.

[iii] L. Romera,  A fé cristã diante dos desafios da cultura contemporânea, «Synesis» v. 4, n. 2 (2012). Disponível em: http://seer.ucp.br/seer/index.php?journal=synesis&page=article&op=view&path%5B%5D=268&path%5B%5D=177

[iv] Cfr. R. Guardini, Mondo e persona, Saggio di antropologia cristiana, Morcelliana, Brescia 2007.

[v] Cfr. http://www.fides.org/es/news/34300?idnews=34300&lan=spa#.UUykaRxhXst

[vi] Cfr. http://www.cesnur.org/2011/mi-cri.html

[vii] Importantes sociólogos da modernidade (E. Durkheim, M. Weber) entenderam a modernidade como um processo necessário de secularização. Quanto mais modernas seriam as sociedades, mais irrelevantes se tornariam as religiões para a vida pública. Atualmente se constata a sempre maior importância da religião nas sociedades, tanto que J. Habermas fala agora de “sociedade post-secular”.

[viii] Na modernidade surge a crise ecológica, pois pensam a “natureza” como um mecanismo que deve ser ordenado e desfrutado pelo homem. A visão cristã considera o mundo como criação de Deus, a qual deve ser respeitada e cultivada.