Sonho de paz une Munique a Nova York

No 10º aniversário do atentado às Torres Gêmeas

| 888 visitas

MUNIQUE, terça-feira, 13 de setembro de 2011 (ZENIT.org) – “Sentimos um desconsolo moral contra os fanáticos que assassinaram o meu irmão, contra o destino imprevisível que o levou a estar no lugar errado, na hora errada.”

Em Munique (Marstallplatz), a conexão audiovisual com Nova York tornou palpável o silêncio atento do público de líderes religiosos convocados pela Comunidade de Sant'Egidio para o congresso “Bound to live together. Religiões e culturas em diálogo”, no domingo, quando o mundo inteiro recordou o 10º aniversário do atentado às Torres Gêmeas de Manhattan.

O céu estava azul e fazia um calor insólito para esta estação na Alemanha: um clima tão feliz parecia pouco adequado para a celebração que, às 14h46 – 8h46 em Nova York, a hora do ataque –, comemorou as 2.997 vítimas do ódio fanático.

“Para muitos, assim como para o meu irmão, não houve alternativas – prossegue Coleen Kelly, a irmã de Bill, morto no 106º andar da Torre 1, onde se encontrava absolutamente por acaso, para assistir a uma conferência – mas, depois de 12 de setembro, o povo americano e a comunidade global podiam escolher como responder ao terror.”

“Quem recebeu as últimas mensagens das pessoas que iam morrer – reflete Kelly – constatou que nenhum delas dizia 'vamos matá-los' nem gritava por vingança.” O último pensamento se dirigia aos entes queridos; “na maior parte dos casos, eram palavras de amor”.

“Há uma mensagem forte – afirma Kelly – para quem está disposto a escutar, e é que nossa escolha pode ser criativa e a favor da vida, ou destrutiva, como a violência inicial.”

“Dez anos depois – afirmou, durante a comemoração, o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Frisinga, diocese que sedia o evento –, a ferida de 11 de setembro não é facilmente estancável, pois as consequências desse ato de desprezo à humanidade são sentidos até hoje.”

A violência, de fato, “se perpetua nos conflitos, em cada nova reação de violência e de contraposição. É uma rede cujo fim ainda não se consegue ver”. “Esta celebração nos pede que reflitamos novamente. Trata-se de uma memória em sentido amplo, de uma lembrança que pode ser tornar compromisso”, disse o prelado.

“Eu prometo ao meu pai – acrescentou também, em conexão de Nova York, Emily Aoyama, filha de David, morto aos 48 anos, no voo número 11 de American Airlines, de Boston a Los Angeles, o primeiro que colidiu contra as Torres Gêmeas – e a todas as vítimas desta tragédia, que é símbolo de todas as tragédias ocorridas durante a primeira década do século 21, que não morreram em vão, e que trabalharei para construir um caminho rumo a uma paz duradoura.”

Enquanto a voz emocionada de Emily é ouvida em Marstallplatz, um avião traça um rastro branco no céu, quase materializando essas lembranças gravadas pelas imagens de inúmeros telejornais ou sites que cada um guarda na memória.

“As imagens das duas torres do World Trade Center – recordou, enquanto isso, o cardeal – estão impressas profundamente na memória da humanidade. (…) Todos nós recordamos esse dia, recordamos o que fizemos nesse dia, o que nos comoveu.”

Na praça, durante a execução musical que acompanha a comemoração, com a voz cálida do gospel e a doçura da viola, irrompe a violência do tambor, trazendo bruscamente o golpe e a turbação. Toques de sinos aludem à pergunta sobre a fragilidade da vida humana.

Líderes religiosos, budistas, judeus, muçulmanos, junto a católicos e ortodoxos, refletem sobre o papel das religiões para a paz.

“É um erro – disse a ZENIT Antonios Naguib, patriarca de Alexandria dos coptas católicos – que, nas celebrações da Zona Zero, não tenham estado presentes os representantes religiosos. A separação entre religião e Estado pode levar a Europa e a América ao risco de eliminar não somente os símbolos religiosos, mas a própria religião da vida do homem, na qual o anseio religioso é, no entanto, insuprível.”

“Há alguns anos – explicou a ZENIT Gregorios III Laham, patriarca de Antioquia dos greco-melquitas –, estive na Zona Zero para uma comemoração e recordei como o mistério do mal não pode prevalecer sobre o da Ressurreição para os cristãos. Perder a esperança na paz e no bem é negar a vida.”

“O título deste congresso, 'bound' – e entrelaça os dedos das mãos, para sublinhar a eficácia do termo – diz tudo: estamos todos unidos e devemos seguir adiante juntos”, acrescentou.

Um coral de crianças se une à execução para cantar o hino à paz, de Konstantia Gourzi. “Um mundo para todos os povos”, cantam as crianças, e com elas canta também a primeira fila de convidados, onde estão presentes as autoridades civis, inclusive o jovem presidente da Alemanha, Christian Wulff. Mais tarde, na inauguração oficial do congresso, ele afirmou com convicção: “A religião nunca dá licença para matar”.

“Certamente – disse, em sua intervenção, o cardeal Marx –, é necessário defender-se dos que, com violência e uma inimaginável fantasia do mal, agem contra pessoas inocentes e desejam somente a destruição total.”

“Mas a nossa resposta – sublinhou o arcebispo de Munique – deve ser maior, mais ampla e profunda.” Isso significa que “os Estados Unidos e toda a civilização ocidental, a comunidade mundial inteira, isto é, os que foram o alvo do ataque, devem encontrar novas respostas de paz e de convivência em um mundo global, um mundo no qual as diversas culturas, religiões e ideias devem e podem ter um lugar.”

“Deixem que este sonho se realize”, concluiu o hino à paz em Marstallplatz, el 11 de setembro de 2011.