Suspensão do Paraguai do Mercosul e da Unasul: mais considerações

Decisão dos países sul-americanos dura até as eleições de abril de 2013

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Carmine Tabarro

ROMA, quinta-feira, 30 de agosto de 2012 (ZENIT.org) - Em 13 de agosto, o Paraguai foi informado da sua suspensão do Mercosul e da Unasul. O país fica suspenso dos blocos até as próximas eleições presidenciais, previstas para abril de 2013.

A punição foi aplicada pelos países sul-americanos por causa da maneira como o senado paraguaio (formado em sua maioria por membros dos partidos Colorado e Liberal) depôs o presidente Fernando Lugo em 22 de junho. O acordo, assinado em Mendoza, na Argentina, não prevê sanções econômicas.

O Mercosul reúne Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. São quatro países de PIB muito diferente: basta considerar que o Brasil sozinho detém 77% do PIB do Mercosul, enquanto o Paraguai possui apenas 1%. Se o Mercosul é uma união econômica, a Unasul, por sua vez, representa 12 países da América do Sul e tem caráter de governança política. O novo governo de Federico Franco chamou a decisão de "ilegal e ilegítima".

Para Franco, qualquer sistema democrático prevê a desconfiança do governo, o que também se aplica à constituição paraguaia. Em sua opinião, portanto, não se pode falar de golpe. A resposta do Mercosul e da Unasul foi unânime: o julgamento político sobre o presidente Lugo foi feito de forma rápida demais e sem garantias de processo correto.

Na mesma reunião do Mercosul, foi aceita a entrada da Venezuela, a ser formalizada no Rio de Janeiro em 31 de julho próximo. A Venezuela de Hugo Chávez é considerada estratégica, especialmente para o Brasil, em se visando o intercâmbio de recursos petrolíferos e de inovação tecnológica. Mais uma vez, a lógica das decisões foi regida pelo critério do negócio, enquanto a ética foi tratada como um conceito desconhecido.

As minhas fontes em Assunção temem manifestações mais intensas contra a suspensão do Paraguai do Mercosul e da Unasul. No interior do país, o grupo terrorista EPP, de extrema-esquerda, parece pronto para desencadear uma onda de atentados, violência e sequestros.

É necessária uma pacificação social urgente no Paraguai e a Igreja é a única que pode exercer este papel. A Conferência Episcopal Paraguaia, de fato, está trabalhando em prol da paz no país, mas é preciso admitir que, especialmente entre alguns religiosos que tinham apoiado a ascensão de Fernando Lugo e que não aprovaram a sua destituição, vem se manifestando um forte descontentamento. São poucas vozes, porém. Como um todo, a Igreja está se mostrando unida e tem olhado para o bem maior do país durante esta difícil fase de transição.

Parecem-me muito sábias as palavras do núncio apostólico, dom Eliseo Antonio Ariotti, na Festa da Santa Sé, em presença do presidente Franco, de alguns ministros, do corpo diplomático e de sacerdotes, religiosos e religiosas. Dom Ariotti lembrou a missão da Igreja na sociedade, citando o episódio do jovem rei Salomão, também abordado por Bento XVI em seu discurso no Bundestag, em setembro de 2011.

"Os valores religiosos da fé cristã enobrecem as relações entre pessoas e grupos, promovem a coesão social e a liberdade, na justiça e no respeito".

Atualizando o episódio do jovem rei Salomão, o núncio exortou os políticos a terem um coração dócil para distinguir o bem do mal. "O imperativo é defender e respeitar as vítimas e, coerentemente, os interesses de todos, sem mentiras nem ilusões, que são sempre fonte de ansiedade e de perigosos egoísmos".

Continuando o discurso, o núncio acrescentou: "O sangue dos mártires não clama por vingança, mas por reconciliação. O sangue dos caídos no Paraguai pede paz, justiça e reconciliação". Só este pode ser o "programa e o caminho certo desta nobre nação".

(Tradução:ZENIT)