Terceira pregação de Quaresma: «Acolhe a Palavra»

| 931 visitas

CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 7 de março de 2008 (ZENIT.org).- Esta sexta-feira pela manhã, na Capela "Redemptoris Mater", com a presença de Bento XVI, o pregador da Casa Pontifícia, padre Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap., proferiu a segunda pregação de Quaresma.

«A Palavra de Deus é viva e eficaz» (Hebreus 4, 12) é o tema das meditações. As primeiras duas pregações podem-se ler em Zenit, 22  e 29 de fevereiro.


* * *

  

Terceira pregação

«Acolhe a Palavra»

1. A lectio divina

Nesta meditação, refletimos sobre a palavra de Deus como caminho de santificação pessoal. A Lineamenta redigida em preparação ao Sínodo dos Bispos (outubro de 2008) traz um tópico do capítulo II dedicado à «palavra de Deus na vida do crente».

Trata-se de um tema querido à tradição espiritual da Igreja. «A palavra de Deus -- diz Santo Ambrósio -- é o sustento vital de nosso espírito; ela o alimenta e governa; não há outra coisa que possa fazer viver o espírito do homem mais que a palavra de Deus». «É tão grande a força e a virtude da palavra de Deus -- acrescenta a Dei Verbum -- que se torna o apoio vigoroso da Igreja, solidez da fé para os filhos da Igreja, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual» [2].

«De modo particular -- escreve João Paulo II na Novo millennio ineunte -- é necessário que a escuta da Palavra se torne um encontro vital, segundo a antiga e sempre válida tradição da lectio divina: esta permite ler o texto bíblico como palavra viva que interpela, orienta, plasma a existência»[3]. Sobre o tema também falou o Santo Padre Bento XVI -- com ocasião do Congresso internacional sobre Sagrada Escritura na vida da Igreja: «A assídua leitura da Sagrada Escritura acompanhada da pregação estabelece uma conversação íntima em que, lendo, escuta-se Deus que fala e, pregando, responde-se com autêntica abertura de coração» [4].

Com a reflexão que segue, insiro-me nesta rica tradição, começando sobre o quê, a esse respeito, se diz na própria Escritura. Na carta de São Tiago lemos este famoso texto sobre a palavra de Deus:

«Por sua vontade é que nos gerou pela palavra da verdade, a fim de que sejamos como que as primícias das suas criaturas. Já o sabeis, meus diletíssimos irmãos: todo homem deve ser pronto para ouvir, porém tardo para falar e tardo para se irar; porque a ira do homem não cumpre a justiça de Deus. Rejeitai, pois, toda impureza e todo vestígio de malícia e recebei com mansidão a palavra em vós semeada, que pode salvar as vossas almas. Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes; isto equivaleria a vos enganardes a vós mesmos. Aquele que escuta a palavra sem a realizar assemelha-se a alguém que contempla num espelho a fisionomia que a natureza lhe deu: contempla-se e, mal sai dali, esquece-se de como era. Mas aquele que procura meditar com atenção a lei perfeita da liberdade e nela persevera - não como ouvinte que facilmente se esquece, mas como cumpridor fiel do preceito -, este será feliz no seu proceder. (Tg 1, 18-25).

2. Acolher a palavra

Do texto de Tiago obtemos um esquema de lectio divina feito de três estágios ou operações sucessivas: acolher a palavra, meditar a palavra, praticar a palavra.

O primeiro estágio é aquele da escuta da Palavra: «recebei com mansidão a palavra em vós semeada, que pode salvar as vossas almas». Este primeiro estágio abrange toda a forma e os modos com os quais o cristão entra em contato com a palavra de Deus: escuta da Palavra na liturgia, facilitado hoje pelo uso da língua vernácula e da sábia seleção dos textos distribuídos ao longo do ano; também escolas bíblicas, estudos e a insubstituível leitura pessoal da Bíblia na própria casa. Aqui se chama a ensinar aos outros tudo que se liga ao estudo sistemático da Bíblia: exegese, crítica textual, teologia bíblica, estudo da língua original.

Nesta fase é preciso resguardar-se de dois perigos. O primeiro é parar neste primeiro estágio e transformar a leitura pessoal da palavra de Deus em uma leitura «impessoal». Este perigo é muito forte hoje, sobretudo nos locais de formação acadêmica.

São Tiago compara a leitura da palavra de Deus a um olhar-se ao espelho; mas, observa Kierkegaard, quem se limita a estudar a fonte, as variações, os gêneros literários da Bíblia, sem fazer mais, assemelha-se a alguém que passa todo o tempo a mirar o espelho -- examinando cuidadosamente a forma, o material, o estilo, a época --, sem nunca olhar-se no espelho. Para ele, assim, o espelho não cumpre sua função. A palavra de Deus foi dada para que seja colocada em prática, não para que se exercite na exegese de sua obscuridade. Há uma «inflação de hermenêutica» e, o pior, acredita-se que a coisa mais séria, a respeito da Bíblia, é a hermenêutica, não a prática [5].

O estudo crítico da palavra de Deus é indispensável, e deve haver muita gratidão para com aqueles que gastaram a vida a aplainar a estrada para uma sempre melhor compreensão do texto sacro, mas isso não esgota o sentido da Escritura; é necessário, mas não suficiente.

O outro perigo é o fundamentalismo: tomar tudo que se lê na Bíblia ao pé da letra, sem nenhuma reflexão hermenêutica. Este segundo risco não é tão inofensivo quanto se imagina e o debate sobre criacionismo e evolucionismo evidencia isso.

Aqueles que defendem a leitura literal do Genesis (o mundo criado alguns milhares de anos atrás, em seis dias, quase como é agora) causam um dano imenso à fé. «Os jovens cresciam em famílias e em igrejas que insistiam nesta forma de criacionismo -- escreveu o  cientista crente Francis Collins, diretor do projeto que brindou a descoberta do genoma humano -- e cedo ou tarde descobriam a surpreendente evidência em favor de um universo muito mais velho, e a conexão entre toda criatura vivente pelo processo de evolução e de seleção natural. Que terrível e inútil opção se teria de fazer dali para frente! Não é de se assustar se muitos desses jovens abandonam a fé, concluindo não poder crer num Deus que lhes pede para rejeitar aquilo que a ciência ensina com tanta evidência sobre o universo natural» [6].

Apenas aparentemente os dois exageros, do excesso de criticismo e o do fundamentalismo, são opostos: eles têm em comum o fato de ficarem na letra, descuidando do Espírito.

3. Contemplar a Palavra

A segunda etapa sugerida por São Tiago consiste em «fixar o olhar» sobre a palavra, em estar diante do espelho, em suma na meditação ou contemplação da Palavra. Os Padres usavam no que se refere a isto as imagens do mastigar e do ruminar. «A leitura – escreve Guigo II, o teórico da lectio divina – oferece à boca uma comida substanciosa, a meditação a mastiga e a quebra» [7]. «Quando alguém traz à memória as coisas ouvidas e docemente as repensa em seu coração, torna-se igual ao ruminante», diz Agostinho [8].

A alma que se vê no espelho da Palavra começa a conhecer «como é», começa a conhecer a si mesma, descobre sua deformidade da imagem de Deus e da imagem de Cristo. «Eu não busco a minha glória», disse Jesus (Jo 8, 50): eis, o espelho está diante de ti e rapidamente vês quanto está longe de Jesus; «Bem-aventurados os pobres de espírito»: o espelho está de novo diante de ti e rapidamente te revela repleto ainda de apegos e cheio de coisas supérfluas; «a caridade é paciente...» e te das conta de quanto és impaciente, invejoso, interessado.

Mais que «perscrutar a Escritura» (cf. Jo 5, 39), trata-se de deixar-se perscrutar pela Escritura. A palavra de Deus, diz a carta aos Hebreus, «penetra até o ponto de divisão da alma e do espírito, dos ligamentos e da medula e perscruta os sentimentos e os pensamentos do coração (Hb 4, 12-13). A oração melhor com a qual iniciar o momento da contemplação da Palavra é repetir com o salmista:

«Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração,

Prova-me, e conhece minhas preocupações:

Vê se não ando por um caminho fatal

e conduz-me pelo caminho da vida» (Sl 139).

Mas no espelho da Palavra, nós não vemos somente a nós mesmos; vemos o rosto de Deus; ou melhor, vemos o coração de Deus. A Escritura, disse São Gregório Mágno, é «uma carta de Deus onipotente à sua criatura; nela se começa a conhecer o coração de Deus nas palavras de Deus» [9]. Também para Deus vale o que foi dito por Jesus: A boca fala do que está cheio o coração (Mt 12, 34); Deus nos falou, na Escritura, disto que transborda seu coração e isto que transborda seu coração é o amor.

A contemplação da Palavra nos traz de tal modo os dois conhecimentos mais importantes para avançar sobre a estrada da verdadeira sabedoria: o conhecimento de si e o conhecimento de Deus. «Que eu conheça a mim e que conheça a ti, noverim me, noverim te – dizia Santo Agostinho a Deus –; que eu me conheça para humilhar-me que conheça a ti para amar-te».

Um exemplo extraordinário deste duplo conhecimento, de si e de Deus, que se obtém pela palavra de Deus é a carta à igreja de Laodicéia no Apocalipse, que vale a pena meditar agora, especialmente neste tempo de Quaresma (cf. AP 3, 14-20). O Ressuscitado revela, antes de tudo, a real situação do fiel típico desta comunidade: «Conheço tuas obras: não és frio nem quente. Melhor que fosses frio ou quente! Mas porque és morno, não és, isto é, nem frio nem quente, estou para vomitar-te de minha boca». Impressionante o contraste entre aquilo que este fiel pensa de si e aquilo que dele pensa Deus: «Tu dizes: ‘Sou rico, enriqueci-me; não necessito de nada’; não passas de um infeliz, um miserável, um pobre, cego e desnudo».

Uma página de uma dureza insólita, que porém é imediatamente rebatida por uma das descrições absolutamente mais tocantes do amor de Deus: «Eis que estou à porta e bato. Se alguém escuta minha voz e me abre a porta, eu virei a ele, cearei com ele e ele comigo». Uma imagem que revela seu significado realístico e não só metafórico, se lida, como sugere o texto, pensando no banquete eucarístico.

Além de que para verificar o estado pessoal de nossa alma, esta página do Apocalipse nos pode servir para revelar a situação espiritual de grande parte da sociedade moderna diante de Deus. É como uma daquelas fotos com raios infravermelhos tiradas por um satélite artificial que revelam um panorama totalmente diverso do habitual, observado à luz natural.

Também este nosso mundo, orgulhoso por suas conquistas científicas e tecnológicas (como os laodicênios eram de sua fortuna comercial), sente-se satisfeito, rico, sem necessidade de ninguém, nem de Deus. É necessário que alguém o faça conhecer o verdadeiro diagnóstico de seu estado: «Não passas de um infeliz, um miserável, um pobre, cego e mudo». Necessita que alguém o grite, como faz a criança na fábula de Andersen: «O rei está nu!» Mas por amor e com amor, como faz o Ressuscitado com os laodicênios.

A palavra de Deus assegura a toda alma que o deseja uma fundamental, e em si infalível, direção espiritual. Existe uma direção espiritual, por assim dizer, ordinária e quotidiana que consiste em descobrir o que Deus quer nas diversas situações nas quais o homem, por si só, vem a encontrar na vida. Uma tal direção é assegurada pela meditação da palavra de Deus acompanhada da unção interior do Espírito que traduz a palavra em boa «inspiração» e a boa inspiração em resolução prática. É isto que exprime o versículo do salmo tão querido pelos amantes da Palavra: «Lâmpada para os meus passos é a vossa palavra, luz sobre meu caminho» (Sl 119, 105).

Certa vez pregava em uma missão na Austrália. No último dia um homem veio me encontrar, um emigrado italiano que trabalhava ali. Disse-me: «Padre, tenho um problema sério: tenho um menino de 11 anos que até agora não foi batizado. O fato é que minha mulher se tornou testemunha de Jeová e não quer sequer falar de batismo na Igreja católica. Se o batizo, haverá uma crise, se não o batizo não me sinto tranqüilo porque quando nos casamos éramos ambos católicos e prometemos de educar na fé os nossos filhos. O que devo fazer?». Disse-lhe: «Deixe-me refletir esta noite, volte amanhã pela manhã e veremos o que fazer». No dia seguinte este homem vem a meu encontro visivelmente sereno e me diz: «Padre, encontrei a solução. Ontem à noite, voltando para casa, rezei um pouco, depois abri a Bíblia ao acaso. Veio-me a passagem onde Abraão leva o filho Isaac para a imolação e vi que quando Abraão leva o filho Isaac à imolação não diz nada a sua mulher». Era um discernimento exegeticamente perfeito. Batizei eu mesmo o menino e foi um momento de grande alegria para todos.

Isto de abrir a Bíblia ao acaso é uma coisa delicada, que deve ser feita com discrição, em um clima de fé e não antes de ter rezado bastante. Não se pode todavia ignorar que, nestas condições, isso deu muitos frutos maravilhosos e foi praticado também pelos santos. De Francisco de Assis se lê, nas fontes, que descobre o gênero de vida ao qual Deus o chamava abrindo três vezes ao acaso, «depois de ter rezado devotamente», o livro dos evangelhos «dispostos a seguir o primeiro conselho que lhe fosse oferecido» [10]. Agostinho interpretou a palavra «Tolle lege», toma e lê, que ouviu de uma casa vizinha, como uma ordem divina para abrir o livro das Cartas de Paulo e de ler o versículo que primeiramente lhe fosse apresentado aos olhos[11].

Existiram almas que se tornaram santas com o único diretor espiritual que é a palavra de Deus. «No Evangelho – escreveu Santa Teresa de Lisieux – encontro todo o necessário para minha pobre alma. Descubro sempre nela luzes novas, significados escondidos e misteriosos. Entendo e sei por experiência que ‘o reino de Deus está dentro de nós’ (cf. Lc 17, 21). Jesus não precisou de livros nem de doutores para instruir as almas; ele, o Doutor dos doutores, ensina sem rumor de palavra» [14]. Foi através de uma palavra de Deus, lendo um depois outro os capítulos 12 e 13 da Primeira Carta aos Coríntios, que a santa descobriu sua vocação profunda e exclamou jubilante: «No corpo místico de Cristo serei o coração que ama!»

A Bíblia nos oferece uma imagem plástica que reassume tudo aquilo que se disse sobre meditar a palavra: aquela do livro comido que se lê em Ezequiel:

«Olhei: uma mão estava estendida para mim, segurando um livro enrolado. Desenrolou-o diante de mim; estava escrito por dentro e por fora e vi que estavam escritas ali queixas, gemidos e gritos. Ele me disse: ‘Filho do homem, come este rolo, depois vá e fala à casa de Israel’. Abri a boca e ele me fez comer o rolo, dizendo-me: ‘Filho do homem, alimenta teu ventre e sacia tuas entranhas com este rolo que te dou’. Eu o comi e foi para minha boca doce como o mel (Ez 2, 9 – 3, 3, cf. Também Ap 12, 10).

Há uma diferença enorme entre o livro simplesmente lido ou estudado e o livro engolido. No segundo caso, a Palavra torna-se verdadeiramente, como dizia Santo Ambrósio, «o sustento de nossa alma», aquilo que informa os pensamentos, plasma as linguagens, determina as ações, cria o homem «espiritual». A Palavra engolida é uma Palavra «assimilada» pelo homem, não obstante se trate de uma assimilação passiva (como no caso da Eucaristia), isto é, de um «ser assimiliado» pela Palavra, subjugado e vencido por essa, que é o princípio vital mais forte.

Na contemplação da palavra temos um modelo dulcíssimo, Maria; ela preservava todas estas coisas (ao pé da letra: estas palavras) meditando-as no seu coração (Lc 2, 19). Nela a metáfora do livro engolido tornou-se realidade física. A Palavra literalmente lhe há «preenchido as vísceras».

4. Fazer a Palavra

Chegamos assim à terceira fase do caminho proposto pelo apóstolo Tiago, a qual o apóstolo insiste mais: «Sejais daqueles que põem em prática a palavra..., se alguém escuta somente e não coloca em prática...; quem a coloca em prática, encontrará sua felicidade ao praticá-la». É também o que está mais no coração de Jesus: «Minha mãe e meus irmãos são aqueles que escutam a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 8, 21). Sem este «fazer a Palavra», tudo se torna ilusão, construção sobre a areia. Não se pode nem sequer dizer que compreendeu a palavra porque, como escreve São Gregório Magno, a palavra de Deus se compreende verdadeiramente só quando se começa a praticá-la [13].

Esta terceira etapa consiste, na prática, em obedecer à palavra. O termo grego usado no Novo Testamento para designar a obediência (hypakouein) traduzido literalmente, significa «dar ouvidos», no sentido de seguir aquilo que se escutou. «Meu povo não escutou minha voz, Israel não me obedeceu», lamenta-se Deus na Bíblia (Sl 81, 12).

Justamente quando se começa a buscar, através do Novo Testamento, em que coisa consiste o dever da obediência, se faz uma descoberta surpreendente e, isto é, que a obediência é vista quase sempre como obediência à palavra de Deus. São Paulo fala de obediência à verdade (Gl 5, 7), de obediência a Cristo (2 Cor 10, 5). Encontramos a mesma linguagem também em outro lugar: os Atos dos Apóstolos falam de obediência à fé (At 6, 7), a Primeira carta de Pedro fala de obediência a Cristo (1 Pd 1, 2) e de obediência à verdade (1 Pd 1, 22).

A própria obediência de Jesus é exercitada sobretudo através da obediência às palavras escritas. No episódio das tentações do deserto, a obediência de Jesus consiste em proclamar a palavra de Deus e ater-se a esse: «Está escrito!» Sua obediência é exercitada, de modo particular, sobre palavras que foram escritas sobre ele e por ele «na lei, nos profetas e nos salmos» e que ele, como homem, descobre pouco a pouco que avança na compreensão e no cumprimento de sua missão. Quando querem se opor à sua captura, Jesus diz: «Mas como então se cumprirão as Escrituras, segundo as quais assim deve acontecer?» (Mt 26, 54). A vida de Jesus é como que guiada por uma estrela luminosa que os outros não vêem e que é formada pelas palavras escritas por ele; Ele deduz pelas Escrituras o «se deve» (sobre ele) que rege toda sua vida.

As palavras de Deus, sob ação atual do Espírito Santo, tornam-se expressão da vivente vontade de Deus para mim, em um dado momento. Um pequeno exemplo ajudará a entender. Em uma circunstância ocorreu que alguém havia tomado por engano um objeto que eu usava. Buscava fazê-lo notar e a pedir que me fosse devolvido, quando me deparei, por acaso (mas talvez não fosse verdadeiramente por acaso) com a palavra de Jesus que diz: «Dá a quem quer que te peça; e a quem te toma o teu bem, não reclames» (Lc 6, 30). Compreendi que aquela palavra não se aplicava universalmente e em todos os casos, mas que certamente se aplicava a mim naquele momento. Tratava-se de obedecer à palavra.

A obediência à palavra de Deus é a obediência que podemos fazer sempre. De obediência a ordens e autoridades visíveis, entendida em fazer somente aqui e agora, três ou quatro vezes em tudo na vida, se trata-se de obediências sérias; mas de obediências à palavra de Deus tem que ser uma a cada momento. É também a obediência que podemos fazer todos, súditos e superiores, clérigos e leigos. Os leigos não possuem, na Igreja, um superior a quem obedecer – ao menos no sentido com o qual possuem os religiosos e os clérigos –; possuem porém, em compensação, um «Senhor» a quem obedecer! Possuem sua palavra!

Terminamos esta nossa meditação fazendo nossa a oração que Santo Agostinho eleva a Deus, em suas Confissões, para obter a compreensão da palavra de Deus: «Sejam vossas Escrituras minhas castas delícias; que eu não me engane sobre elas, nem engane aos outros com elas... Voltai seu olhar sobre minha alma e escutai quem grita do abismo... Concedei-me tempo para meditar sobre os segredos de vossa lei, não fechai-a a quem bate... Eis que vossa voz é minha alegria, vossa voz um prazer superior a todos os outros. Dai-me o que amo... Não abandonai esta tua erva sedenta... Revelem-se os significados de vossas palavras, às quais bato... Peço-vos pelo Senhor nosso Jesus Cristo... em quem nascem todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Col 2, 3). Estes tesouros eu busco em vossos livros»[14].

1. S. Ambrogio, Exp. Ps. 118, 7,7 (PL 15, 1350).

2. Dei Verbum, 21.

3. Giovanni Paolo II, Novo millennio ineunte, 39).

4. Benedetto XVI, in AAS 97, 2005, p. 957).

5. S. Kierkegaard, Per l’esame di se stessi. La Lattera di Giacomo, 1,22, in Opere, a cura di C. Fabro, Firenze 1972, pp. 909 ss.

6. F. Collins, Le language of God, Free Press 2006, pp. 177 s.

7. Guigo II,Lettera sulla vita contemplativa (Scala claustralium), 3, in Un itinerario di contemplazione. Antologia di autori certosini, Edizioni Paoline, 1986, p.22.

8. S. Agostino,Enarr. in Ps. 46, 1 (CCL 38, 529).

9. S. Gregorio Magno, Registr. Epist. IV, 31 (PL 77, 706).

10. Celano,Vita Seconda, X, 15.

11. S. Agostino,Confessioni, 8, 12.

12. S. Teresa diLisieux,Manoscritto A, n. 236.

13. S. Gregorio Magno,Su Ezechiele, I, 10, 31 (CCL 142, p. 159).

14. S. Agostino,Conf. XI, 2, 3-4.

[Traduzido do original em italiano por José Caetano e Alexandre Ribeiro]