Teresa de Calcutá: Luz desde a escuridão (II)

Fala o postulador da causa de canonização, padre Kolodiejchuk

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ROMA, sexta-feira, 7 de setembro de 2007 (ZENIT.org).- Sem o sofrimento, o trabalho da madre Teresa de Calcutá teria sido simplesmente trabalho social e não obra de Jesus Cristo, explica o postulador de sua causa de canonização, citando a própria beata.



Na segunda parte desta entrevista concedida à agência Zenit, o padre Brian Kolodiejchuk, missionário da Caridade, explica pontos centrais do livro que acaba de publicar, com o título «Come Be My Light» («Venha, seja minha luz»), no qual recolhe escritos da madre Teresa, em parte inéditos, que revelam como durante longos anos de sua vida experimentou o terrível sofrimento de não sentir o amor de Deus.

–O nome do livro, «Venha, seja minha luz», foi um pedido de Jesus à madre Teresa. Como se relaciona seu sofrimento redentor pelos demais, no meio dessa profunda escuridão, com seu carisma particular?

–Padre Kolodiejchuk: Durante os anos cinqüenta do século passado, madre Teresa rendeu-se e aceitou a escuridão. O padre Joseph Neuner [um dos diretores espirituais que teve em sua vida] ajudou-a a compreender isso, relacionando a escuridão com seu carisma: saciar a sede de Deus.

Ela costumava dizer que a maior pobreza era não se sentir amado, solicitado, cuidado por ninguém, e era exatamente o que ela estava vivendo em sua relação com Jesus.

Seu sofrimento redentor era parte da vivência de seu carisma a serviço dos mais pobres entre os pobres.

De maneira que, para ela, o sofrimento era não só um meio para identificar-se com a pobreza física e material, mas que, no âmbito interior, identificava-se com os não amados, com os que estão sozinhos, com os que são rechaçados.

Renunciou a sua própria luz interior para iluminar os que viviam na escuridão, dizendo: «Sei que não são mais que sentimentos».

Em uma carta a Jesus, escreveu: «Jesus, ouve minha oração, se isso te agrada. Se minha dor e sofrimento, minha escuridão e separação te dá uma gota de consolação, faz comigo o que queiras, todo o tempo desejes. Não olhe meus sentimentos nem minha dor».

«Sou tua. Imprime em minha alma e vida os sofrimentos de teu coração. Não olhe meus sentimentos, não olhe nem sequer minha dor».

«Se minha separação de ti permite que outros se aproximem de ti e tu encontras alegria e deleite em seu amor e companhia, quero de todo coração sofrer o que sofro, não só agora, mas pela eternidade, se for possível».

Em uma carta a suas irmãs, faz mais explícito o carisma da Ordem: «Minhas queridas filhas, sem sofrimento, nosso trabalho seria somente trabalho social, muito bom e útil, mas não seria obra de Jesus Cristo, não participaria da redenção. Jesus desejava ajudar-nos compartilhando nossa vida, nossa solidão, nossa agonia e morte. Tudo isso ele assumiu em si mesmo, e o levou à noite mais escura. Somente sendo um de nós podia nos redimir.

A nós, permite fazer o mesmo: toda a desolação dos pobres, não apenas sua pobreza material, mas também sua profunda miséria espiritual deve ser redimida e compartilhada, orai, então, assim quando isso vos resulte difícil: “Quero viver neste mundo que está longe de Deus, que se distanciou da luz de Jesus, para ajudá-lo, para carregar uma parte de seu sofrimento”».

E isso resume o que considero o fundamento de sua missão: «Se um dia chego a ser santa, seguramente serei uma santa da “escuridão”. Seguirei estando ausente do Céu para dar luz aos que estão na escuridão na terra…».

Assim é como compreendeu sua escuridão. Muitas das coisas que disse têm mais sentido e resultam mais profundas agora que sabemos isso.

–Então, o que o senhor diz a quem qualifica sua experiência como uma crise de fé e que ela realmente não acreditava em Deus, ou a quem sugere que sua escuridão era um sinal de instabilidade psicológica?

–Padre Kolodiejchuk: Ela não teve crises de fé, ou falta de fé, mas teve uma prova de fé na qual experimentou o sentimento de que ela não acreditava em Deus. Esta prova requereu muita maturidade humana, porque, se não, não teria sido capaz de suportá-la. Teria desequilibrado.

Como disse o padre Garrigou Lagrange, é possível experimentar simultaneamente sentimentos contraditórios entre si.

É possível ter uma «alegria cristã objetiva», como a chamou Carol Zaleski, e ao mesmo tempo entrar na prova ou sentimento de não ter fé.

Não há duas pessoas aqui, mas uma pessoa com sentimentos em diferentes níveis.

Podemos realmente estar vivendo a cruz de algum modo – é dolorosa e nos faz dano –, e ainda que a espiritualizemos isto não tira a dor. Agora, ao mesmo tempo, podemos estar alegres porque estamos vivendo com Jesus, e isto não é falso.

Aqui está o como e o porquê a madre Teresa viveu uma vida tão cheia de alegria.

–Como postulador de sua causa de canonização, quando crê que poderemos chamá-la de santa?

–Padre Kolodiejchuk: Precisamos de outro milagre – examinamos alguns, mas nenhum é suficientemente claro –. Houve um para a beatificação mas estamos esperando o segundo.

Talvez Deus esperou que se publicasse antes o livro, pois muitos tinham a madre Teresa por santa, mas era tão simples e se expressava de uma maneira tão simples que não compreendiam a profundidade de sua santidade.

O outro dia, escutei dois sacerdotes falarem sobre isso. Um dizia que nunca havia sido muito fã da madre Teresa porque pensava que era piedosa, devota, e que fez obras admiráveis, mas que quando ouviu falar de sua vida interior, isto mudou o que pensava dela.

Agora temos algo mais que uma mera idéia de sua evolução espiritual e uma parte de sua profundidade foi revelada.

Uma vez que chegue o milagre, tardaremos ao menos dois anos, ainda que o Papa possa acelerar o processo se desejar.

–O que aconteceu com a Ordem desde a morte da madre Teresa?

–Padre Kolodiejchuk: A Ordem cresceu quase em mil irmãs, de 3.850 a 4.800 hoje, e acrescentamos cerca de 150 casas em mais de quatorze países. A obra de Deus segue.