"Testemunhar nas sociedades a original abertura à transcendência"

Discurso do Papa Francisco aos Delegados Fraternos

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) | 996 visitas

Publicamos a seguir o discurso dado hoje pelo Papa Francisco aos Delegados Fraternos das Igrejas, Comunidades eclesiais e Organismos Ecumênicos Internacionais, Representantes do povo judeu e de Religiões não Cristãs, reunidos em Roma para a celebração do início oficial do Seu ministério petrino.

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Queridos irmãos e irmãs,

Em primeiro lugar agradeço de coração o que nos disse o meu Irmão André. Muito obrigado! Muito obrigado!

É um motivo de especial alegria encontrar-me convosco hoje, Delegados das Igrejas Ortodoxas, das Igrejas Ortodoxas Orientais e das Comunidades eclesiais do Ocidente. Agradeço-vos por terdes querido participar da celebração que marcou o início do meu ministério de Bispo de Roma e Sucessor de Pedro.

Ontem de manhã, durante a Santa Missa, por meio das vossas pessoas reconheci espiritualmente presente as comunidades que representais. Nesta manifestação de fé, pareceu-me viver de modo ainda mais urgente a oração pela unidade dos crentes em Cristo e juntos vermos de alguma forma prefigurada aquela plena realização, que depende do plano de Deus e da nossa leal colaboração.

Começo o meu ministério apostólico neste ano em que o meu venerado predecessor, Bento XVI, com intuição realmente inspirada, proclamou para a Igreja católica o Ano da fé. Com esta iniciativa, que espero continuar e espero que seja um estímulo para a caminhada de fé de todos, ele quis marcar o 50 º aniversário do início do Concílio Vaticano II, propondo uma espécie de peregrinação ao que para cada cristão representa o essencial: a relação pessoal e transformante com Jesus Cristo, Filho de Deus, morto e ressuscitado para a nossa salvação. E é justo no desejo de anunciar este tesouro perenemente válido da fé aos homens do nosso tempo que reside o coração da mensagem conciliar.

Junto convosco não posso esquecer o quanto aquele Concílio significou para o caminho ecumênico. Gosto de lembrar as palavras que o beato João XXIII, que celebraremos em breve o 50º aniversário da sua morte, pronunciou no memorável discurso de inauguração: "A Igreja Católica considera que é seu dever trabalhar ativamente para que se cumpra o grande mistério daquela unidade que Cristo Jesus com ardentes orações pediu ao Pai Celeste na iminência do seu sacrifício; ela goza de paz suavíssima, sabendo estar intimamente unida a Cristo naquela oração” (AAS 54 [1962], 793). Até aqui Papa João.

Sim, queridos irmãos e irmãs em Cristo, todos nos sentimos intimamente unidos à oração do nosso Salvador na Última Ceia, na sua invocação: ut unum sint. Peçamos ao Pai misericordioso de viver em plenitude aquela fé que recebemos como dom no dia do nosso Batismo, e de poder testemunhá-la livre, alegre e corajosamente. Este será o nosso melhor serviço à causa da unidade dos cristãos, um serviço de esperança para um mundo ainda marcado pela divisão, pelos contrastes e rivalidades. Mais seremos fieis à sua vontade, nos pensamentos, nas palavras e nas obras, e mais caminharemos realmente e substancialmente em direção à unidade.

De minha parte desejo assegurar, na estrada dos meus antecessores, a firme vontade de continuar no caminho do diálogo ecumênico e agradeço desde agora o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, pela ajuda que continuará a oferecer, em meu nome, por esta nobilíssima causa. Peço-vos, caros irmãos e irmãs, que leveis a minha cordial saudação e certeza da minha lembrança no Senhor Jesus às Igrejas e Comunidades cristãs que aqui representais, e peço-vos a caridade de uma especial oração pela minha pessoa, para que possa ser um Pastor segundo o coração de Cristo.

E agora dirijo-me a vós ilustres representantes do povo judeu, com o qual temos um especialíssimo vínculo espiritual, já que, como afirma o Concílio Vaticano II, “a Igreja de Cristo reconhece que os inícios da sua fé e da sua eleição se encontram já, segundo o mistério divino da salvação, nos patriarcas, em Moisés, e nos profetas” (Declaração Nostra Aetate, 4). Agradeço-vos pela vossa presença e confio que, com a ajuda do Altíssimo, poderemos continuar com proveito aquele fraterno diálogo que o Concílio desejava (cf. ibid.) e que realmente aconteceu, trazendo não poucos frutos, especialmente ao longo das últimas décadas.

Cumprimento depois e agradeço cordialmente a todos vós, caros amigos pertencentes a outras tradições religiosas; antes de mais nada os Muçulmanos, que adoram o Deus único, vivente e misericordioso, e o invocam na oração, e a todos vós. Aprecio muito a vossa presença: nessa vejo um sinal perceptível da vontade de crescer na estima recíproca e na cooperação para o bem comum da humanidade.

A Igreja Católica está ciente da importância que tem  a promoção da amizade e do respeito entre os homens e mulheres de diferentes tradições religiosas – quero repetir isso: promoção da amizade e do respeito entre homens e mulheres de diferentes tradições religiosas – o confirma também o valioso trabalho realizado pelo Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. Ela também está ciente da responsabilidade que todos nós temos com relação ao nosso  mundo, toda a criação, que devemos amar e proteger. E nós podemos fazer muito pelo bem de quem é mais pobre, de quem é fraco e de quem sofre, para favorecer a justiça, para promover a reconciliação, para construir a paz. Mas, especialmente, devemos manter viva no mundo a sede do absoluto, não permitindo que prevaleça uma visão da pessoa humana com uma só dimensão, segundo a qual o homem se reduz ao que produz e ao que consome: esta é uma das armadilhas mais perigosas do nosso tempo.

Sabemos quanta violência produziu na história recente a tentativa de eliminar Deus o divino do horizonte da humanidade, e advertimos o valor de testemunhar nas nossas sociedades a originária abertura à transcendência que é inerente ao coração humano. Nesto, sentimos perto todos aqueles homens e mulhers que, ainda não reconhecendo-se pertencentes de alguma tradição religiosa, sentem-se porém em busca da verdade, da bondade e da beleza, esta verdade, bondade e beleza de Deus, e que são nossos valiosos aliados no compromisso da defesa da dignidade do homem, na construção de uma convivência pacífica entre os povos e ao guarda com cuidado a criação.

Caros amigos, mais uma vez, muito obrigado pela vossa presença. A todos, ofereço a minha cordial e fraterna saudação.