Toda realidade eclesial será chamada a um «estado de Missão» na América Latina

Fala Rodrigo Guerra López, diretor do Observatório Social do CELAM

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HAVANA, domingo, 15 de julho de 2007 (ZENIT.org).- «Aparecida» é um santuário mariano brasileiro, mas também o nome com que se identifica o começo de um renovado itinerário para a Igreja na América Latina.



É que os bispos, convocados ali recentemente na Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, propuseram relançar um novo protagonismo laical no contexto da grande missão continental que envolverá todas as estruturas e realidades eclesiais.

O grande encontro eclesial e sua concretização (para o que se conta já com o Documento de Aparecida, recém-aprovado pelo Papa) ocupou boa parte dos trabalhos nessa semana na capital cubana, na XXXI Assembléia do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM).

Diretor do Observatório Social do CELAM, Rodrigo Guerra López (leigo, doutor em Filosofia pela Academia Internacional de Liechtenstein, membro da Academia Pontifícia para a Vida), aprofunda nas implicações da grande missão continental nesta entrevista concedida a Zenit-El Observador em Havana.

--Que pode a um leigo a Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano?

--Rodrigo Guerra López: «Aparecida» foi uma Conferência de bispos. Por isso, é necessário entender em primeiro lugar que precisamente por sua acepção episcopal, este é um acontecimento verdadeiramente eclesial, quer dizer, um momento de graça para todos. Os fiéis laicos são destinatários – não únicos, mas principais –, da reflexão dos bispos em Aparecida. O chamado afetuoso que os bispos nos fazem é a necessidade de empreender um novo protagonismo que não defraude a identidade secular e eclesial que define nossa vocação própria e específica.

--Que significa «não defraudar» a identidade própria e específica dos leigos?

--Rodrigo Guerra López: Significa entender que os fiéis leigos somos principalmente aqueles que mostramos a radical novidade do acontecimento cristão na família, no trabalho, nos movimentos populares, nas escolas, nas empresas, nos sindicatos, nos partidos, no governo… e em tantos outros espaços seculares nos que a fé pode tornar-se cultura, estilo de vida e proposta criativa. Por isso, a participação dos leigos nas tarefas intraeclesiais não deve eclipsar, mas fortalecer e impulsionar o compromisso concreto no meio do mundo.

Assim, para não cair em uma pertença eclesial puramente abstrata, individualista ou sectária, os bispos insistiram em que uma dimensão constitutiva da fé é a pertença real a uma comunidade concreta na que possamos viver uma experiência permanente de discipulado e de comunhão. Os primeiros discípulos entendiam justamente sua pertença a Cristo como uma pertença a uma comunidade concreta, encarnada, que é verdadeiro corpo do Senhor. Se este momento concreto se suprime, a tentação docentista reaparece.

--A que se refere com essa última afirmação?

--Rodrigo Guerra López: Significa que em vários momentos da história alguns afirmaram de maneira explícita, ou ao menos implícita, a divindade de Jesus Cristo sem uma autêntica Encarnação. Se Deus não tivesse abraçado e feito própria a condição humana através da Encarnação, a Redenção seria uma farsa, Cristo seria um fantasma. A essência do cristianismo precisamente consiste em afirmar que Deus acolhe realmente todo homem e todo homem na segunda Pessoa da Trindade. Esta acolhida é um gesto de amizade e simpatia pelo humano.

Desde este ponto de vista, creio que «Aparecida» poderia interpretar-se como um chamado a reeducar nossa consciência e nosso coração em uma simpatia igual, que nos permita colaborar a dilatar a presença de concreta de Cristo na história através de uma comunhão igualmente concreta. Nada mais distante do «docentismo» que isso.

--Do Observatório social do CELAM procedem vários livros sobre análise social prévios à Quinta Conferência. Qual é o objetivo deste esforço se o tema central de um acontecimento eclesial como este é o «discipulado»? Não há risco de cair em certo «sociologismo» ao propor este tipo de material?

--Rodrigo Guerra López: Os riscos não vêm de olhar a realidade, mas de não atendê-la em toda sua integridade. As ideologizações são sempre ausência de realismo. A realidade, incluída a realidade social, é um fator educativo para a consciência cristã. O Observatório Social do CELAM precisamente busca, de maneira modesta, mas real, oferecer dados que permitam compreender a mudança de época contemporânea. Esta mudança foi precisamente uma das coordenadas centrais que marcaram a reflexão estritamente pastoral dos bispos.

Precisamente um bom pastor é o que conhece bem as suas ovelhas. Hoje, em parte, isso significa conhecer bem as mutações culturais e sociais que estão experimentando as nações latino-americanas. Evidentemente, o juízo sapiencial sobre estas mutações não corresponde às ciências sociais – por mais interessantes que sejam –, mas à consciência eclesial iluminada pela verdade sobre o homem e sobre Deus revelada em Cristo e expressada na Doutrina social cristã.

--Como os fiéis leigos hão de atender sem ideologizações os diferentes desafios sociais da América Latina?

--Rodrigo Guerra López: Nós, leigos, precisamos reaprender a ampliar os horizontes da razão. Este é um caminho educativo que só se inicia quando uma realidade absolutamente nova irrompe e provoca nossa consciência e nosso afeto. É o acontecimento de uma Pessoa o que permite que a existência se redefina e possa olhar o real com olhos limpos.

O Papa Bento XVI já o dizia no discurso inaugural de «Aparecida»: se Cristo não entra, se não ingressa no horizonte de nossa razão, «toda a realidade se converte em um enigma indecifrável; não há caminho e, ao não haver caminho, não há vida nem verdade». Este é o fundamente do realismo cristão, que evita o colapso da razão em visões parciais ou ideologizadas.

--Que papel terão os fiéis leigos na missão continental?

--Rodrigo Guerra López: Justamente esta questão é um dos temas de maior reflexão e compromisso dos bispos latino-americanos e caribenhos na XXXI Assembléia do CELAM que se desenvolveu aqui, em Havana. A missão continental será um convite a que todas as estruturas e realidades eclesiais se situem em estado de missão. Isso implica que nós, fiéis leigos, reativemos com maior ardor e de maneira simultânea nosso compromisso por transformar as estruturas temporais de acordo com o Evangelho.

Urge-nos um novo protagonismo que mostre que a fé se fortalece ao ser partilhada, que mostre que os católicos na vida social colaboram com uma contribuição positiva, com uma nova vida, com uma criatividade original, que não se dissolve nem se confunde com a lógica auto-referencial do poder do Estado ou do mercado contemporâneo, e que tampouco cai em fáceis clericalismos.

Para um leigo, entrar em «estado de missão» significa saber-se enviado como Igreja no momento de atuar de forma cristã como novo brio no meio do mundo, e transformar realmente o mundo, em seus múltiplos aspectos e «areópagos», sem perder pertença empírica com a «communio», com a companhia concreta, que é a Igreja.

--Que espera a nova diretiva do CELAM ao finalizar todos esses esforços?

--Rodrigo Guerra López: Dom Damasceno Assis, Dom Baltazar Porras, Dom Andrés Stanovnik e Dom Victor Sánchez formam uma equipe que, com grande experiência e entusiasmo, busca servir as Conferências Episcopais no processo de ativação de «Aparecida».

Se houvesse que resumir em uma só idéia todo este esforço, creio, pessoalmente, que se poderia citar aquela feliz expressão de Bento XVI ao início da encíclica Deus caritas est e que foi retomada em «Aparecida»: «Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande idéia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».