Tornar-se como criança

"Somos chamados a refletir sobre a nossa responsabilidade com relação às crianças e o protagonismo delas no mundo de hoje, iluminados pela fé"

Rio de Janeiro, (Zenit.org) Card. Dom Orani Tempesta, O.Cist. | 619 visitas

O mês de outubro é o mês em que celebramos também o Dia das Crianças.  Em geral esse dia é explorado comercialmente, levando as pessoas a compras e festas. Creio que nesse dia, além das comemorações infantis que são próprias das crianças, somos chamados a refletir sobre a nossa responsabilidade com relação às crianças e o protagonismo delas no mundo de hoje, iluminados pela fé.

Além disso, há as consequências para nossas vidas, pois Jesus afirma que para entrar no Reino de Deus é preciso “tornar-se como crianças”. E o que significa para nós esta afirmação de Jesus?  Desde o nascimento, as crianças nos ensinam a simplicidade, a confiança, a abertura que nos ajudam a amadurecer. São muitas as discussões sobre a influência do meio e as tendências com que nascemos, mas, sem dúvida, o início da vida faz com que o futuro seja olhado com esperança.

Isso nos inspira para que em qualquer relacionamento humano, seja entre pais e filhos, seja entre amigos, devemos ter atitudes de simplicidade, amor incondicional, confiança em relação a aqueles que sabem mais do que nós, humildade para aprender. Assim, teríamos um melhor relacionamento, sem a interferência de preconceito, da inveja, do ciúme e de querer vencer a todo o custo o outro em uma luta pela supremacia e hegemonia. O maior aos olhos de Deus é a pessoa simples, que “como uma criança” vê as coisas com olhos puros e cujas ações são ditadas pelo amor.

Tornamo-nos muito preocupados e cheios de compromissos. Temos muitas desconfianças uns dos outros e as feridas da história nos machucaram, deixando-nos muitas vezes amargos. As nossas amarguras e decepções influenciam nosso modo de viver e os nossos relacionamentos.        

A vida de muitos é uma corrida contínua ao topo, ao sucesso, mas não percebem o que faz a diferença para sua própria vida e também diante de Deus. Na verdade, tem valor aquele que age com o coração simples como o de uma criança.

Devido à ferrenha concorrência e disputas de hoje, vemos pessoas que querem apenas vencer, mesmo que preciso for pisar nos outros: quanto mais estas pessoas possuem, elas tentam ganhar mais, infelizmente. Por isso maior será a nossa miséria, porque nunca elas estarão satisfeitas com o que têm. As frustrações corroem as alegrias e a paz.

 Nós não desfrutaremos de uma agradável corrida ao ar livre, de um mergulho no mar ou de uma caminhada nas montanhas se não tivermos um coração de criança. Quem não vive “como criança” não fará uma parada para agradecer os pequenos presentes e atitudes de carícias de Deus manifestadas em sua vida.

Precisamos aprender a ver o mundo com olhos de uma criança livre e que vislumbra as pequenas coisas da vida como uma borboleta, que voa livre e contempla a beleza da natureza e, através de contos, poemas e poesias despertam para a realidade.

Nesse dia, é muito importante refletir que o direito das crianças é justamente de “ser criança” e que a família, os pais, a sociedade devem cuidar para que nossas crianças cresçam em ambiente sadio e fraterno. Seja isso nas famílias, seja na utilização dos meios de comunicação, seja na escola ou na sociedade. Eis o desafio de nosso tempo! E isso começa desde o momento do direito a nascer e a ter uma família. Para nós, é imprescindível ajudá-las a viver com alegria a fé em Cristo, que as acolhe e conduz. Elas têm direito a acolher e aprender quem é Deus e deixar-se conduzir por Deus-Amor. Este é outro problema do mundo de hoje, que necessitamos afirmar nestes tempos de mudança de época.

Também temos muitas situações tristes: o Santo Padre Francisco nos disse: "Hoje, há crianças que não têm o que comer no mundo. Crianças que morrem de fome, de desnutrição; basta ver fotografias de alguns lugares do mundo. Há doentes que não têm acesso a tratamento. Há homens e mulheres que são mendigos de rua e morrem de frio no inverno. Há crianças que não têm educação. Infelizmente nada disso é notícia. Mas quando as bolsas de algumas capitais caem três ou quatro pontos, isso é tratado como uma grande catástrofe. Compreende? Esse é o drama desse humanismo desumano que estamos vivendo. Por isso, é preciso recuperar os extremos, crianças e jovens. E não cair numa globalização da indiferença em relação a esses dois extremos, que são o futuro da população".

Portanto, se queremos e desejamos um mundo justo, fraterno e de paz necessitamos urgentemente acolher as palavras de Jesus: é preciso “tornar-se como crianças”. Paz, felicidades e bênçãos a todos, particularmente às crianças, lembrando o que Jesus nos ensina para viver no cotidiano: "Deixai vir a mim as criancinhas; não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus" (Lc18,16)

† Orani João Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ