Transformados pela guerra

Relatos de terror e heroísmo de sobreviventes da Segunda Guerra Mundial

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Por Edward Pentin

ROMA, terça-feira, 16 de março de 2010 (ZENIT.org).- O ítalo-americano Donato De Simone sabe bem o que significa ser uma criança presa nos horrores da guerra. Ele acabou de escrever um livro que recorda os heróis que salvaram milhares de judeus da perseguição nazista e a participação da Igreja nesta obra de salvamento.

Nascido em 1932 na pequena cidade de Fossacesia, na costa adriática italiana, sofreu o trauma de esquivar dos nazistas, das bombas e da fome durante uma das grandes batalhas da Segunda Guerra Mundial. Ele viu muitos amigos morrerem, incluindo seu professor favorito, morto durante o período de evacuação da Itália em 1943.

Então, sobrevivendo à guerra, perdeu sua mãe que morreu por complicações de parto em 1948.

“A Segunda Guerra Mundial despejou sobre mim tudo o que tinha em seu arsenal – afirma. Eu sobrevivi mas sofri uma mudança fundamental”.

Agora, com 78 anos, recentemente reuniu todas estas experiências e as registrou em um livro fascinante, chamado Suffer the Children (As crianças sofrem). Ele oferece uma narração muito humana, e que vale a pena ler, daqueles tempos traumáticos. Um texto escrito por sua convicção de que “uma página da história não aprendida está condenada a se repetir”.

Mas ele não se estende demais nos horrores da guerra; também detalha os muitos atos de heroísmo que aconteceram na Itália, tanto em sua própria família como especialmente no âmbito do clero que salvou judeus. Como no livro de Elizabeth Bettina, It Happened in Italy (Aconteceu na Itália), do qual escrevi aqui ano passado, De Simone escreveu um testemunho de todos aqueles atos de heroísmo abnegados que fez a Itália, provavelmente, ser o melhor lugar para os judeus escaparam dos nazistas durante a guerra.

Sua história é sugestiva e cheia de bom humor. Ele narra, por exemplo, a reação muito humana de sua avó quando perguntaram para seus familiares se tinha pessoas vivendo em cima de sua casa. “Está louco?”, respondeu. “Todos os homens estão longe, e teríamos estrangeiros vivendo conosco? Diga-lhes que não”.

“Claro que fiz, respondeu a mãe. Porém, o monsenhor Tozzi [seu pároco] disse: ‘Imagine se Jesus bater na sua porta pedindo hospitalidade. Você vai fechar a porta na cara dele?’ Com isso, não teve outra escolha a não ser dispor dois quartos".

Uma semana depois, conta De Simone, ela ficou encantada quando “Jesus veio” na forma de “quatro esplêndidas loiras”. Mas encontrei algo diferente e estranho nelas: não falavam italiano, e seu cabelo loiro não era como das outras meninas da cidade. Ao pesquisar para seu livro, na década de 90, descobriu que sua família havia dado refúgio a duas famílias judias durante sete meses cada uma, e que havia 214 refugiados em sua pequena cidade.

Acredita-se que eles provavelmente foram os refugiados resgatados graças aos esforços extraordinários de Giovanni Palatucci, um policial de Fiume. Em 1939, Palatucci interceptou um navio grego que navegava no mar Adriático com 800 judeus que estavam a ponto de ser entregues aos nazistas. Ele os levou até Abbazia, onde o bispo local, Isidor Sain, colocou-os em igrejas, conventos e mosteiros antes de transferi-los ao tio de Palatucci, o bispo Giuseppe Maria Palatucci, de Campagna. Todos eles escaparam da captura e acabaram em Israel depois de 1948. No total, calcula-se que Palatucci salvou cerca de seis mil judeus, mas ele mesmo morreu em Dachau em 10 de fevereiro de 1945.

De Simone também inclui uma interessante carta de Rodolfo Grani, escrita em 1952 e publicada em um jornal israelita. Grani, um judeu de Fiume que ajudou Palatucci no resgate de 1939, fez uma grande defesa do Papa Pio XII, que, até então, era objeto de críticas de alguns judeus. Pio XII, recordou, “fez de tudo para salvar o maior número de judeus possível” e quando os nazistas aumentaram a campanha contra os judeus italianos em 1943, “mobilizou toda a força clerical do Vaticano”. Grani afirma que Pio XII deu apoio completo aos bispos Platucci e Sain, no resgate dos 800 judeus do navio do Adriático. De Simone acredita que naqueles dias “nenhum clérigo, desde um cardeal até um sineiro, fez um movimento sem o conhecimento e aprovação do Papa”. A Igreja, disse, “arriscou até o pescoço” para ajudar ano salvamento de judeus.

“As crianças sofrem” é um inestimável registro dos horrores da guerra, cujo autor espera que seja muito instrutivo para os jovens. Sua narrativa, recheada de heroísmo pessoal, seria também um emocionante filme de Hollywood, e é altamente esclarecedora e inspiradora.

“O heroísmo não está previsto, explica De Simone, mas nasce da necessidade imediata e inesperada do momento”. “Vi muitos heróis aqueles dias – recorda – e, ainda que pareça raro, eram todos italianos”.