Um cristão sem memória não é um verdadeiro cristão

Homilia do Papa Francisco na festa de Pentecostes

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) Redacao | 488 visitas

Apresentamos as palavras do Papa Francisco em sua homilia na festa de Pentecostes, celebrada pela Igreja católica neste domingo, 8 de junho. 

“Ficaram todos cheios do Espírito Santo” (At 2, 4).

Falando aos Apóstolos na Última Ceia, Jesus disse que, depois da sua partida deste mundo, enviaria a eles o dom do Pai, isso é, o Espírito Santo (cfr Jo 15, 26). Esta promessa se realiza com poder no dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo desce sobre os discípulos reunidos no Cenáculo. Aquela efusão, embora extraordinária, não permaneceu única e limitada àquele momento, mas é um evento que se renovou e se renova ainda. Cristo glorificado à direita do Pai continua a realizar a sua promessa, enviando sobre a Igreja o Espírito vivificante, que nos ensina e nos recorda e nos faz falar.

O Espírito Santo nos ensina: é o Mestre interior, nos guia pelo caminho certo, através das situações da vida. Ele nos ensina a estrada, o caminho. Nos primeiros tempos da Igreja, o cristianismo era chamado “o caminho” (cfr At 9, 2) e o próprio Jesus é o Caminho. O Espírito Santo nos ensina a segui-lo, a caminhar seguindo seus passos. Mais que um mestre de doutrina, o Espírito Santo é um mestre de vida. E da vida faz parte certamente também o saber, o conhecer, mas dentro do horizonte mais amplo e harmônico da existência cristã.

O Espírito Santo nos recorda, nos recorda tudo aquilo que Jesus disse. É a memória viva da Igreja. E enquanto nos faz recordar, nos faz entender as palavras do Senhor.

Este recordar no Espírito e graças ao Espírito não se reduz a um fato mnemônico, é um aspecto essencial da presença de Cristo em nós e na sua Igreja. O Espírito de verdade e de caridade nos recorda tudo aquilo que Jesus disse, nos faz entrar sempre mais plenamente no sentido das suas palavras. Todos nós temos esta experiência: um momento, em qualquer situação, há uma ideia e depois uma outra se conecta com um trecho da Escritura… É o Espírito Santo que nos faz fazer este caminho: o caminho da memória viva da Igreja. E isto pede de nós uma resposta: mais a nossa resposta é generosa, mais as palavras de Jesus se tornam em nós vida, se tornam atitudes, escolhas, gestos, testemunho. Em essência, o Espírito nos recorda o mandamento do amor e nos chama a vivê-lo.

Um cristão sem memória não é um verdadeiro cristão: é um cristão pelo meio do caminho, é um homem ou uma mulher prisioneiro do momento, que não sabe fazer tesouro da sua história, não sabe lê-la e vivê-la como história de salvação. Em vez disso, com a ajuda do Espírito Santo, podemos interpretar as inspirações interiores e os acontecimentos da vida à luz das palavras de Jesus. E assim cresce em nós a sabedoria da memória, a sabedoria do coração, que é um dom do Espírito. Que o Espírito Santo reavive em todos nós a memória cristã! E naquele dia, com os Apóstolos, havia uma Mulher da memória, aquela que desde o início meditava sobre todas aquelas coisas no seu coração. Havia Maria, nossa Mãe. Que Ela nos ajude neste caminho da memória.

O Espírito Santo nos ensina, nos recorda e – um outro traço – nos faz falar, com Deus e com os homens. Não há cristãos mudos, mudos de alma; não, não há lugar para isto.
Faz-nos falar com Deus na oração. A oração é um dom que recebemos gratuitamente; é diálogo com Ele no Espírito Santo, que reza em nós e nos permite nos dirigirmos a Deus chamando-O de Pai, Pai, Abbà (cfr Rm 8, 15; Gal 4, 4); e isto não é só um “modo de dizer”, mas é a realidade, nós somos realmente filhos de Deus. “Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8, 14).

Faz-nos falar no ato de fé. Ninguém de nós pode dizer: “Jesus é o Senhor” – ouvimos isso hoje – sem o Espírito Santo. E o Espírito nos faz falar com os homens no diálogo fraterno. Ajuda-nos a falar com os outros reconhecendo neles os irmãos e as irmãs; a falar com amizade, com ternura, com brandura, compreendendo as angústias e as esperanças, as tristezas e as alegrias dos outros.

Mas tem mais: o Espírito Santo nos faz falar também aos homens na profecia, isso é, fazendo-se “canais” humildes e dóceis da Palavra de Deus. A profecia é feita com franqueza, para mostrar abertamente as contradições e as injustiças, mas sempre com brandura e intenção construtiva. Penetrados pelo Espírito de amor, podemos ser sinais e instrumentos de Deus que ama, que serve que dá a vida.

Recapitulando: o Espírito Santo nos ensina o caminho; nos recorda e nos explica as palavras de Jesus; nos faz rezar e dizer ‘Pai’ a Deus, nos faz falar aos homens no diálogo fraterno e nos faz falar na profecia.

O dia de Pentecostes, quando os discípulos “ficaram todos cheios do Espírito Santo”, foi o batismo da Igreja, que nasce “em saída”, “em partida” para anunciar a todos a Boa Notícia. A Mãe Igreja, que parte para servir. Recordemos a outra Mãe, a nossa Mãe que partiu com prontidão, para servir. A Mãe Igreja e a Mãe Maria: todas as duas virgens, todas as duas mães, todas as duas mulheres. Jesus foi peremptório com os apóstolos: não deveriam se afastar de Jerusalém antes que tivessem recebido do alto a força do Espírito Santo (cfr At 1, 4.8). Sem Ele não há missão, não há evangelização. Por isso com toda a Igreja, a nossa Mãe Igreja católica invoquemos: Vem, Santo Espírito!

(Trad.:Canção Nova)