Um mês depois: continuidade do Papa Francisco com o magistério de Bento XVI

É preciso tomar uma certa distância desses entusiasmos iniciais

Crato, (Zenit.org) Vitaliano Mattioli | 973 visitas

A eleição de qualquer Papa sempre faz que se destaque as diferenças com o antecessor. Normalmente se enfatizam os aspectos positivos, as novidades, até mesmo sobre as coisas mais simples. Diz-se que o novo Papa traz uma lufada de ar fresco à Igreja.

É preciso tomar uma certa distância desses entusiasmos. Desde que eu era estudante fiquei impressionado pelo pontificado do Beato Pio IX (1846-1878). Nos dois primeiros anos (1846-1848) foi considerado o papa da Providência, que teria virado a maré italiana. Mas quando, em 1848, ele se recusou a permitir que o exército papal se unisse ao exército dos Savoia para lutar contra a Áustria... o Papa recusou alegando que o Chefe da cristandade não podia lutar contra uma nação católica como a Áustria pois era uma contradição.

A partir desse dia as forças anticlericais começaram a atuar e por todo o seu longo pontificado, Pio IX sofreu uma perseguição contínua. Até mesmo depois de sua morte, quando seu corpo foi transferido do Vaticano para a basílica de S. Lorenzo (no Verano) para ser enterrado, no momento em que o cortejo fúnebre atravessou a ponte sobre o rio Tibre, um bando de anarquistas tentou jogar o caixão na água.

Não gostaria que a mesma coisa acontecesse com o Papa Francisco. Ele é o guardião da Verdade e da Tradição. Ele está convencido disso e está disposto à total fidelidade.

Demonstrou essa sua posição mais de uma vez nos discursos deste primeiro mês. Como também falar do seu antecessor com tanto respeito e estima.

Um ponto parece-me de grande importância. Em seu discurso ao Corpo Diplomático pronunciou as seguintes palavras: "Mas há ainda outra pobreza: é a pobreza espiritual dos nossos dias, que afeta gravemente também os países considerados mais ricos. É aquilo que o meu predecessor, o amado e venerado Bento XVI, chama de a «ditadura do relativismo», que faz que cada um seja medida de si mesmo, colocando em perigo a convivência entre os homens... Não pode haver verdadeira paz, se cada um é a medida de si mesmo, se cada um pode reivindicar sempre e somente os próprios direitos”.  

Bento XVI normalmente usava a expressão “ditadura do relativismo”, entendendo com a palavra ‘ditadura’ a falta de liberdade de pensamento; com a palavra ‘relativismo’ a ausência de absolutos.

O Papa Francisco demonstra compartilhar totalmente a doutrina de Bento XVI. Isso significa que os ‘Princípios não negociáveis’ (outra expressão muito querida pelo Papa Bento XVI) não podem rebaixar-se à concessões.

Mas por que é tão importante não estar de acordo com a "ditadura do relativismo"?

Se aceitarmos esta devemos aceitar que não há uma Verdade absoluta, objetiva, que é a base das outras. Falta para o homem a bússola, o ponto de referência objetivo “deixando cada um como medida de si mesmo, colocando em perigo a convivência entre os homens”.

Assim, cai-se no chamado “pensamento fraco”, cuja paternidade pode ser encontrada no filósofo italiano Gianni Vattimo, mas as raízes culturais são encontradas em Martin Heidegger.

Existem dos campos de aplicações: um político e outro moral.

No âmbito da política, a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu no dia 24 de novembro de 2002 uma "Nota doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política” (Assinado por Ratzinger).

Nesta se lê: “Constata-se hoje certo relativismo cultural…quando teoriza e defende um pluralismo ético (n. 2).  A libertade política não é nem pode ser fundada sobre a ideia relativista, segundo a qual, todas as concepções do bem do homem têm a mesma verdade e o mesmo valor... A vida democratica  tem necessidade de bases verdadeiras e sólidas, ou seja, de princípios éticos que, por sua natureza, não são negociáveis (n. 3)”.

Se o Político não aceita a existência de tais princípios não-negociáveis, perde de vista a Verdade e a moral objetiva caindo num subjetivismo arbitrário. O Estado laico se transforma em Estado laicista que de fato se apresenta como Estado ético. Estamos em pleno regime ditatorial e totalitário.

A outra área é a moral.

Olhemos um pouco para trás, para as duas conferências do Cairo (Egito 1994) e de Pequim (China 1995). Na do Cairo prevaleceu uma filosofia hedonista. Na de Pequim as verdadeiras intenções vieram à luz: da expressão ‘necessidades sexuais’ passou-se àquela dos ‘direitos’. Em primeiro lugar destacaram-se os ‘desejos sexuais’, que não é saudável reprimí-los. Esta reflexão conduziu a uma outra: se existem “necessidades-desejos’ que não está bem reprimir, para o indivíduo isso se transforma num ‘direito’ a ser exercitado. Por fim: se é um ‘direito’ o Estado deve colocar-me em condições de poder exercitar este ‘meu’ direito.

Tudo isso entrou no campo da bioética e distorceu totalmente a estrutura. Da bioética passou-se ao bio-direito para depois envolver a bio-política.

Ter renunciado àqueles ‘princípios não negociáveis’ trouxe-nos a este positivismo: não existe nada certo; o homem torna-se norma de si mesmo.

Revogando a visão ética, tudo se torna lícito e ninguém deve contradizer esta licitude. Estamos em plena anarquia moral e relativismo ético. O pior é que esse ‘relativismo’ se transforma em ditadura: é obrigatório adequar-se a esses clichês; se alguém, indivíduo ou instituição, não se encaixa é acusado de obscurantismo e de inimigo da modernidade.

Por esta razão, a Igreja, talvez a única instituição que se opõe à essa ditadura, é ultrajada e vilipendiada e o seu chefe supremo, o Papa, acusado de obscurantismo, caluniado e humilhado.

Isso aconteceu especialmente aos últimos Papas; não gostaria que acontecesse também com o Papa Francisco.

Bento XVI em um discurso em Milão, no dia 2 de junho de 2012, disse: “liberdade não significa  arbítrio do indivíduo, mas implica ao contrário a responsabilidade de  cada um”.

O mesmo, no discurso à Cúria Romana  (21 de dezembro de 2012)  falou sobre a “nova filosofia da sexualidade que é apresentada sob o vocábulo gender-gênero”. E comentou: “Salta aos olhos a profunda falsidade desta teoria e a revolução antropológica que lhe está subjacente”.

Recebeu muitas críticas por causa desta reflexão.

Felizmente, a Igreja não desiste diante dessa perseguição. Hoje, em uma confusão total da sociedade, valioso transatlântico mas sem bússola, alguém falou de um eclipse da civilização, a Igreja Católica continua a mostrar os pontos de referência para evitar o naufrágio completo.

Por isso um agradecimento sincero a tudo o que o Papa Francisco poderá fazer para manter acesa a chama da Verdade e continuar a iluminar esta humanidade, de acordo com as palavras do profeta Isaías: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz, para os que habitavam nas sombras da morte uma luz resplandeceu” (Os., 9, 2). 

É a luz de Cristo, levada à humanidade de hoje pelo seu vigário na terra.

[Tradução Thácio Siqueira]