Um pedaço do céu

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Por Elizabeth Lev

CIDADE DO VATICANO, domingo, 22 de junho de 2008 (ZENIT.org).- O crítico de arte do século XVI Giorgio Vasari falou muito bem quando descreveu Antonio Allegri de Correggio, afirmando que «ninguém manuseou melhor as cores que ele, ou produziu pinturas de mais delicadeza».

Uma nova exposição na Galleria Borghese apresenta 25 pinturas deste mestre da Emilia Romagna, que viveu no período da Renascença italiana. Esta é a maior exposição móvel do artista que ganhou fama pelos afrescos que produziu na cidade de Parma.

A Vila Borghese foi uma escolha inspirada, por mostrar uma coleção permanente de obras-primas de grandes nomes do Renascimento, como Rafael e Titan. Com as obras de Correggio ao lado de seus mais famosos contemporâneos, os visitantes podem ver a contribuição singular que o artista da Emilia Romagna trouxe para esta fértil era artística.

Comparando o forte porém elegante traço de Rafael em "Entombment" com o de Correggio em "Lamentation Over Dead Christ," pode-se ver como as cores quentes dão um tom de suavidade à cena.

As figuras de Rafael compõem perfeitamente a cena, enquanto as de Correggio são dispostas sob o eixo diagonal da cruz, e uma figura é parcialmente cortada da cena, dando grande senso de presentidade.

Ambos artistas tentam apelar ao coração do observador. Rafael nos dá o contraste de Maria Madalena cândida, segurando a mão solta de Cristo, enquanto a Virgem Maria desfalece do outro lado do painel, espelhando o olhar de morte de Cristo.

A Maria de Correggio também espelha a expressão de morte de seu filho, mas Jesus estende-se sobre seu colo com ela sentada ao chão, o que intensifica o laço entre mãe e Filho.

Muitas qualidades fazem de Correggio um grande artista. A mesma sensualidade com que ele pinta cabelos de ouro e faces suaves ajuda os visitantes a imaginarem a ternura e candura do menino Jesus, em cenas de sua infância.

O apelo aos sentimentos e emoções fez de Correggio o precursor do Barroco. Muitos dos trabalhos de Annibale Carracci, por exemplo, foram profundamente influenciados pela obra de Correggio "Noli Me Tangere", apresentada na exibição.

Até Caravaggio encontrou influência no artista. Observe-se, por exemplo, "Nativity at Night", finalizado em 1522 por Correggio.

Também Bernini observou os trabalhos de Correggio. Seu famoso "Truth Unveiled by Time," esculpido em 1650, traz a idéia de “The Allegory of Virtue”, na coleção da Borghese.

Os maiores trabalhos de Correggio são os afrescos na Catedral de Parma, onde ele mostra a Virgem Maria ascendendo ao céu numa espiral de nuvens e anjos sob uma luz de ouro. Estes, obviamente, não podem ser movidos. Mas também em muitas outras obras do artista, como as selecionadas para a exposição, pode-se apreciar uma arte que faz o céu estar um pouco mais próximo da terra.

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Elizabeth Lev ensina Arte e Arquitetura Cristãs no campus romano da Duquesne University.

[Traduzido do inglês por Alexandre Ribeiro]