Um pouco do Pontificado de Bento XVI (Parte I)

Síntese das suas três encíclicas

Campinas, (Zenit.org) Vanderlei de Lima | 1345 visitas

O Papa Bento XVI é um grande escritor, embora, ao contrário de João Paulo II, tenha preferido publicar, às vezes, como teólogo independente e não na condição de Papa, sucessor de Pedro. Tal é o caso da trilogia Jesus de Nazaré que ele escreveu fazendo uma análise da vida de Cristo, Nosso Senhor, à luz da fé ou da chamada exegese canônica.

Contudo, indo ao cerne da colocação, Ratzinger também escreveu bastante na condição de Bispo de Roma e sucessor de Pedro. Além das encíclicas, que tentaremos sintetizar, publicou quatro exortações apostólicas "Ecclesia in Medio Oriente" (A Igreja no Oriente Médio), "Africae munus" (A missão da África), "Verbum Domini" (A Palavra do Senhor) e "Sacramentum Caritatis" (O Sacramento do Amor), mais de cem cartas apostólicas e também mais de cem constituições apostólicas.

A primeira encíclica de Bento XVI foi assinada em 25 de dezembro de 2005 e se inicia com as palavras “Deus caritas est” (Deus é amor). Trata-se, assim como outras atitudes desse Papa, de um corajoso documento, pois focaliza o verdadeiro sentido do amor num mundo que cada vez mais fala em amar e cada vez menos sabe o que esse verbo realmente significa. Reduz-se, não raras vezes, o amor ao ato sexual quase sempre mantido em relacionamentos extraconjugais.

Ora, o Santo Padre mostra que o ser humano, em seu corpo, deseja o Eros (amor carnal), mas o espírito precisa do  Ágape (amor espiritual/fraternal/desinteressado). Este segundo tipo de amor deve complementar o primeiro a fim de assegurar ao homem a superação de sua animalidade garantindo a sua racionalidade e espiritualidade.

Nesse sentido, Jesus Cristo, Nosso Senhor, é o exemplo maior do ágape, pois foi Ele quem primeiro nos amou e nos ensinou, enquanto Igreja, a testemunhar esse amor ao mundo de hoje. A fim de demonstrar que é plenamente possível viver o ágape, Bento XVI termina a sua encíclica citando o exemplo de vários santos que souberam servir desinteressadamente a Cristo e aos irmãos mais necessitados: São Vicente de Paula, São José de Cotolengo, São João Bosco, Santa Luisa Marilac, Madre Teresa de Calcutá etc.

Em 30 de novembro de 2007, quase dois anos depois de “Deus caritas est”, o Papa apresentou a sua segunda encíclica iniciada com as palavras latinas “Spe Salvi” (Na esperança fomos salvos, de Romanos 8,24). Nela, faz uma grande retrospectiva histórica. Mostra que até o século XVI os homens colocavam, sem dúvidas, a sua esperança em Deus. A partir daí, porém, a descoberta de novas terras, com as grandes navegações, e o avanço das ciências fizeram o ser humano colocar Deus entre parênteses para confiar unicamente nas ciências.

Ora, essa não pôde corresponder aos mais profundos anseios humanos ou responder às suas interrogações básicas (De onde vim? Para onde vou? Que sentido tem a vida? O que há para além da morte? etc.), De modo que tivemos, a partir daquele século, o aparecimento de um homem quase sem esperanças, pois só Deus – e não a ciência, embora importante – é a plena resposta aos anseios mais íntimos e naturais do ser humano. Este foi feito para o Senhor e não descansa enquanto não repousar n’Ele, conforme nos ensina Santo Agostinho de Hipona, falecido em 430.

A terceira e última encíclica de Bento XVI, assinada em 29 de junho de 2009, versa sobre o social com título “Caritas in veritate” (A caridade na verdade) e tem, segundo o estudioso Javier Echevarria, um enfoque multidisciplinar, pois nela “se entrelaçam as dimensões da teologia e da filosofia, da antropologia e economia, da sociologia e da psicologia, para esboçar a problemática do mundo de hoje em seus aspectos externos e internos ao homem, com realce para a ética econômica” (Antônio Carlos Santini em resenha do artigo Caritas in veritate: por uma economia solidária. Atualização n. 342, jan-fev. de 2010, p. 83-88)). Sua grande mensagem é a de que amamos o próximo, mais eficazmente, na medida em que trabalhamos pelo bem dele em suas reais necessidades. Não só em nível pessoal, mas também institucional. Daí, defender o Papa uma economia solidária alicerçada na ética que leve ao bem comum do ser humano trabalhador (quase sempre visto apenas como consumidor) e não à busca insaciável de lucros por parte de grupos empresariais que, se não fiscalizados, menosprezam até certos direitos trabalhistas básicos.

O mundo globalizado há de voltar o seu olhar para o homem e para a mulher do século XXI que têm fome e sede de justiça e devem encontrar na grande fonte da Doutrina Social da Igreja – e não em outras escolas – um alento e uma força transformadora, na teoria e na prática.

Eis o que, muito sinteticamente, poderia ser dito sobre as três encíclicas de Bento XVI que merecem ser lidas integralmente, no silêncio e na oração.

Continuaremos amanhã...

Vanderlei de Lima escreveu artigos e livros, entre eles “Opus-Dei: um envolvente estudo a partir das críticas” (2008); “Enfrentar o Papa?” (2009) e “O verdadeiro católico pode votar em partidos defensores do aborto?”(2012). É editor, desde 2008, da Revista “Refletindo”, que trata de questões atuais, pelo prisma da fé católica.