Uma conversa informal com o pe. Gustavo Gutiérrez sobre a teologia da libertação

O sacerdote peruano fala dos pobres como agentes da própria libertação e aborda sociologia, marxismo, Ratzinger e João Paulo II

Roma, (Zenit.org) Sergio Mora | 950 visitas

Nesta terça-feira, em Roma, durante a apresentação do livro “Povera per i poveri. La missione della Chiesa” [“Pobre e para os pobres: a missão da Igreja”], do cardeal Gherard Muller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ZENIT teve a oportunidade de conversar de maneira informal, juntamente com outros jornalistas, com o pe. Gustavo Gutiérrez, considerado o pai da teologia da libertação.

Gutiérrez declarou que os teólogos da libertação não foram marxistas, embora reconheça que houve gente comprometida com essa ideologia. Observou que, hoje, as ciências sociais são levadas em conta pela teologia, o que não ocorria quando eles as propuseram. Falou da “ideia de que os pobres têm que ser os agentes da sua própria libertação”. Considerou que Ratzinger, por ser teólogo, entendeu melhor que João Paulo II a sua ideia de teologia da libertação e percebeu que ele não era marxista. Considera que o seu encontro com Bento XVI em 2007 não consistiu em “limpar” a sua teologia, apesar de ter sido útil porque a colocou em um contexto apropriado, levando em consideração o “fundamento de espiritualidade muito grande” que houve nela desde o começo.

ZENIT perguntou a Gutiérrez quem desviava a teologia da libertação para a vertente marxista. O sacerdote peruano respondeu: “Não era Boff, não era Sobrino, não era Juan Luis Segundo, não era Ronaldo Muñoz, ou seja, eu diria que não eram os teólogos”. E acrescentou que “houve, é claro, gente muito comprometida antes e que tinha uma base teológica, mas não eram os que faziam teologia”.

“Muitos deles eram gente muito generosa, o que não significa que eles tivessem razão”. E completou que houve um forte fator político em alguns países: “uma dimensão política extraviada, incorreta; sempre há gente assim”.

O pe. Gutiérrez considerou também que, nos dias de hoje, existe um clima mais favorável à abordagem das questões ligadas à teologia da libertação. “Sim, porque conhecemos melhor algumas coisas. Na teologia, as ciências sociais, antes, não apareciam nunca. Mais de quarenta anos atrás, quando nasceu a teologia da libertação, essas questões estavam presentes, não só a filosofia. Hoje os estudos bíblicos estão cheios de sociologia e ninguém fala nada, porque se acostumaram”.

“O ambiente e o contexto mudaram muito, os temas da teologia da liberação estão mais presentes”, como “a pobreza, a justiça”. Em particular, “a ideia de que os pobres mesmos têm que ser os agentes da sua própria libertação, e este foi um ponto que esteve presente desde o início na teologia da libertação”.

Se pudesse voltar quarenta anos no tempo, perguntou ZENIT, Gutiérrez faria as mesmas coisas ou mudaria algo? “Eu nunca pensei nisso, porque as coisas que você vive não dependem só de você. Acho que não faria o mesmo, porque isto significaria que o ambiente teria sido o mesmo”. E sobre o que fez, declara: “Nunca lamentei”.

Questionado por Angela Ambroggetti, da Korazyme, sobre João Paulo II e Ratzinger e para qual deles a teologia da libertação era mais problemática, o sacerdote peruano descreveu como “muito bom” o encontro que teve em Roma com Bento XVI há sete anos, em 2007, e acrescentou que “Ratzinger era mais teólogo, compreendia mais, e isso foi muito importante. Eu, honestamente, posso dizer que a compreensão dele caminhava bem porque ele sabia de que se tratava desde o início, ele sabia que não era a ideia do marxismo”.

“Ele nunca me perguntou nada sobre marxismo, porque sabia que não tem nada disso. Basta ter um pouco de cultura para saber que se você diz que existem conflitos, não é porque você é marxista, mas é porque enxerga a realidade”. O diálogo com o cardeal Ratzinger, que na época estava à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, “era dessa categoria”.

“Com João Paulo II foi diferente. Eu só o vi uma vez na minha vida e ele foi muito brincalhão, me disse que achava que eu era mais alto e no fim botou a mão no meu ombro e disse ‘Continue, continue’. Mas eu não sei o que ele quis me dizer com isso...”.

“Com Ratzinger, o diálogo começou quando ele era cardeal. Eu tenho uma experiência positiva. Ele enviou uma carta para os meus superiores dizendo que o diálogo tinha terminado de maneira satisfatória” e esclareceu que “era um diálogo e não um processo”.

E hoje, estamos vivendo um momento particular na Igreja? Gutiérrez responde: “É um momento que temos que reconhecer que não tínhamos tido. Só os jornais tratavam desses temas, depende também de quais jornais. Mas um momento de Igreja como hoje, isso nós não tínhamos conhecido (...) Um papa que critica o pensamento único e tudo isso”.

Quando lhe comentaram que o seu trabalho foi “muito útil para que o cardeal Gherard Muller conhecesse a situação da pobreza no Peru”, mas também que Muller “ajudou a limpar a teologia da libertação”, o pe. Gutiérrez respondeu: “Limpar não, mas muito útil sim, porque ele a colocou em um contexto, porque a teologia da libertação tem um fundamento de espiritualidade muito grande, desde o começo”. E acrescentou: “Devo isso ao teólogo Dominique Chenot. Isso eu recebi na minha formação inicial e me marcou muito. Porque eu estou convencido de que a teologia nasce na vida diária da Igreja”.

Gutiérrez contou que mantém contato epistolar e pessoal com outros padres da teologia da libertação e que eles abraçaram temas diversos: Leonardo Boff, por exemplo, entrou de cheio na questão da ecologia, a ponto de Gutiérrez considerar que nem é preciso que ele próprio entre nesse tema também.