Uma leitura que reavalia o papa Alexandre VI

Mario Dal Bello: existe uma lenda negra construída sobre Rodrigo Borgia

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Antonio Gaspari

ROMA, quarta-feira, 28 de novembro de 2012 (ZENIT.org) - A interpretação da história e das histórias sobre o papa Alexandre VI (1492-1503), nascido Rodrigo Borgia, ainda levanta questões perturbadoras.

Sobre este papa, que durante séculos foi descrito por seus adversários políticos como corrupto, assassino, escravo da luxúria e disposto a qualquer coisa para aumentar o poder próprio e o poder da família, o jornalista Mario Dal Bello, professor de história e literatura italiana, publica o livro A lenda negra - Os Borgias, observando, no entanto, que Alexandre VI foi hábil e justo no governo da Igreja, devoto de Maria e de Santa Ana, magnânimo com os judeus e mecenas da beleza artística.

A história nos narra que Alexandre VI defendeu a ortodoxia, reformou ordens religiosas e mosteiros e promoveu missões no Novo Mundo (a América) e no oriente. Parece confirmada a sua devoção pessoal, com várias formas de piedade, caridade e oração. O autor do livro recorda ainda o quanto foi manchada a imagem de Lucrécia, filha de Rodrigo, que morreu como terciária franciscana. Mas não é fácil entender que um papa possa ter tido amantes e filhos e gerenciado o poder a ponto de envenenar seus adversários.

Dal Bello explica que é preciso mergulhar no século XVI para entender o que era o papado na época. Em entrevista a Zenit, ele conta que entre as muitas boas obras de Rodrigo Borgia está a organização do Jubileu de 1500, com práticas religiosas que resistiram até os nossos dias, como é o caso da abertura da Porta Santa.

Borgia foi o papa que mandou construir a via retilínea que vai de Castel Sant'Angelo até a Praça de São Pedro, para evitar os “engarrafamentos” que parecem ter atormentado o Jubileu de 1450. Os trabalhos na nova via começaram em abril de 1499 e terminaram na véspera de Natal. A rua foi batizada de Alexandrina, mas, após a morte do papa Borgia, os romanos a chamaram de "Borgo Novo".

Alexandre VI organizou todo o acúmulo de provisões alimentares, controlou os preços que sofriam inflação e abriu hospedarias para os peregrinos pobres. As cerimônias e rituais específicos para abrir e fechar o Ano Santo foram estabelecidas pelo papa Borgia e ainda estão em vigor.

Quanto ao uso de veneno para acabar com os inimigos, Dal Bello responde que "os papas da época estavam imersos na mundanidade e alguns usaram de violência para alcançar e manter o poder. Eles se comportavam mais como chefes de Estado do que como homens da fé. Foi após o Concílio de Trento que tudo mudou".

E os filhos? "Para nós, é difícil entender, mas a mentalidade era diferente. Que os sacerdotes tivessem filhos não era uma coisa extraordinária. Foi uma época em que eram criados cardeais e papas que até alguns anos antes tinham mantido uma vida social comum, com mulher e filhos. Antes de se tornarem papas, sabemos que Pio II, Inocêncio VIII, Júlio II e Paulo III tiveram filhos. Alexandre VI teve filhos mesmo quando já era pontífice. O celibato era uma lei ignorada por todos. Só após o Concílio de Trento é que ela se torna obrigatória novamente".

Em face desses acontecimentos da história, "devemos reconhecer o quanto o Senhor é misericordioso, para perdoar os homens e escrever certo sobre linhas tortas, defendendo a Igreja inclusive dos pecados dos seus membros".

(Trad.ZENIT)