Uma Matriarca do Carmelo brasileiro

Entrevista com Frei Patrício Sciadini, ocd, delegado geral da Ordem Carmelita no Egito

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Por Irmã Regina Célia da Santíssima Trindade, ocd

PATOS DE MINAS, segunda-feira, 27 de agosto de 2012 (ZENIT.org) –  A terceira candidata aos altares da Diocese de Campanha, MG, é a carmelita Madre Tereza Margarida do Coração de Maria, popularmente conhecida como “Nossa Mãe”. Teve o processo de canonização iniciado no dia 4 de março desse ano, no carmelo da cidade de Três Pontas, MG.

Na ocasião ZENIT entrevistou o postulador da causa, Dr. Paolo Vilotta, responsável pelo processo de canonização da “Nossa Mãe”. Leia entrevista clicando aqui.

Publicamos a seguir entrevista exclusiva para ZENIT realizada a Frei Patrício Sciadini, ocd, carmelita Descalço, que já escreveu mais de 60 livros, publicados no Brasil e no exterior, e que atualmente é o delegado geral da ordem no Egito.

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Irmã Regina: Frei Patrício, neste ano de 2012, foi dado inicio ao processo de beatificação da Irmã Carmelita Tereza Margarida do Coração de Maria . O senhor teve a oportunidade de conhecer a irmã quando viva?

Frei Patrício: para mim não foi uma surpresa a abertura do processo de beatificação da Irmã Tereza Margarida do Coração de Maria. A conheci muito bem no tempo que fui Provincial no sudeste do Brasil e sempre tive uma grande admiração por ela, pela sua atitude e pelo seu amor a Deus, a igreja e ao Carmelo. Uma carmelita decidida que sabia unir à firmeza necessária, uma bondade extraordinária com todos. Tinha um coração sempre aberto, acolhedor e cheio de ternura . Eu a chamava carinhosamente, de minha mestra pelos tantos conselhos valiosos que ela me dava, enquanto conversávamos. Sempre senti na sua vida o agir de Deus e um desprendimento do seu pensamento e da sua pessoa. O que ela queria era o bem do outro e a glória de Deus. Tenho pela Madre Tereza uma veneração muito grande. O seu amor de evangelizar com todos os meios que tinha era muito forte nela. Em Três Pontas foi uma verdadeira evangelizadora do altar da oração, criando ao redor do Carmelo uma presença santa às pessoas que aí  iam rezar.

Irmã Regina: Quais fatos recorda da vida da Irmã e que valeria a pena compartilhar com os leitores de ZENIT ?

Frei Patrício: Muitos são os fatos que poderia recordar. Havia nela um forte sentido de comunhão. Por isso que ela sempre soube ser um ponto de comunhão entre os Descalços e Calçados, chamando ao Carmelo tanto uns como outros. Essa atitude da Madre Tereza foi muito positiva especialmente após o concílio Vaticano II. O Carmelo de Três pontas tornou-se um ponto referencial na divulgação da Espiritualidade carmelitana. Outro ponto que gostaria de ressaltar é que ela recebia todos em qualquer hora. Recordo uma vez, em que devia passar por Três Pontas as altas horas da noite, e ela com simplicidade disse: meu filho, venha quando puder, será sempre bem recebido. E mesmo no fim de sua vida, ela sempre tinha uma atitude de acolhida e sabia receber com seu sorriso e sua qualidade de escuta. Madre Tereza soube infundir nas pessoas a alegria de visitar o Carmelo e de fazer do Carmelo a própria casa de oração e de amizade. O Carmelo de Três Pontas foi e é uma verdadeira Betânia, graças ao estilo de vida que Madre Tereza soube infundir nas irmãs.

Irmã Regina: O Senhor acha que a missão de fundadora do Carmelo São José emTrês Pontas foi bem conduzida pela Madre Tereza? E que o aniversário de 50 anos é sinal de que ela deixou o Espírito Santo conduzi-las pelas decisões humanas e espirituais?

Frei Patrício: Não há dúvida de que Madre Tereza soube levar à frente com competência, com amor e com espírito teresiano a fundação do Carmelo de Três Pontas. Ela, apaixonada de Santa Madre Tereza, sabia ler os sinais dos tempos. O seu estilo de vida, o seu modo de agir, foi marcado pela bondade e por uma grande abertura de coração. Tinha um amor a tudo o que é carmelitano e sempre fazia as coisas com as devidas licenças necessárias... Mas tinha bem claro e, nisso encontrou o meu apoio: que as leis são feitas para os homens e não os homens para as leis. O seu espírito de abertura nem sempre foi compreendido, mas se viu que as suas intuições eram autênticas e inspiradas pelo Espírito. A celebração dos 50 anos do Carmelo é a prova mais bela da fecundidade do espírito de Madre Tereza, assim como a fundação do Carmelo de Patos de Minas e as várias irmãs que foram ajudando em outros carmelos. A madre Tereza sempre teve em sua vida esta preocupação de ajudar e ser ponte de comunhão entre os Carmelos. Os Carmelo do Brasil sempre tiveram pela Madre Tereza uma autêntica veneração. Eu a considero uma Matriarca do Carmelo brasileiro que, entre outras souberam em tempos difíceis marcar o passo da renovação e fecundidade do Carmelo no Brasil.

Irmã Regina: O senhor lembra de algum fato nesse período de fundação que recorda o espírito de confiança que a irmã tinha na providência divina, e que também reforçava a constante lista de pedidos de oração pelas famílias amigas que tinham dívidas com bancos e comerciantes ?

Frei Patrício: Só sei que a confiança da madre Tereza na Divina Providência era grande e ela nunca deixava de ajudar os mais necessitados. Ela sabia confiar em Deus e que as dívidas se pagam mais com amor que com dinheiro. Esta é a minha teologia e experiência de vida pessoal. Por isso que eu e a Madre Tereza combinávamos bastante. Éramos como Santa Tereza de Ávila, sem dinheiro, mas na hora certa aparecia. As pessoas sabiam que a madre Tereza não usava o dinheiro para si mesma, mas para os outros. Assim foi com a fábrica de velas, embora depois tenha dado tantas preocupações. Madre Tereza tinha iniciativas para ajudar os mais pobres. O seu amor para os pobres em Três Pontas  é proverbial. Ninguém ia ao Carmelo, sem receber ajuda.

Irmã Regina: O senhor poderia nos contar um pouco de como a Irmã agradecia a Deus por poder ser carmelita e por rezar pela missão do irmão, na época em que Dom João Resende Costa era Bispo de Belo Horizonte?

Frei Patrício: Dom João Resende Costa é outro santo do qual deveríamos começar o processo de beatificação. Sem dúvida, a missão da Carmelita é ser oração para a Igreja. Este sentido missionário está presente desde o tempo de Santa Madre Tereza de Ávila: “o dia em que vossas orações e penitências não forem para a Igreja considerais perdidas.” A madre Tereza sempre teve um grande amor pelo seu irmão e ele por ela. Recordo que quando eu estava em Caratinga e queria celebrar a chegada dos Padres carmelitas aos 25 anos e não sabia como fazer para convidar Dom João, ela foi a intermediária solícita e fraterna. Eu ainda não a conhecia bem. Ser carmelita é ter consciência de que a nossa vocação é rezar pelas missões, e Madre Tereza tinha isso bem claro em sua vida e na sua missão. Convidava constantemente as irmãs a rezarem pela igreja. Acredito que todo o bem que Dom João Resende, realizou por onde passou, deve sem dúvida, as orações das carmelitas.

Irmã Regina: Qual a importância para a Igreja de um (a) candidato (a) a Santo (a) saído das ordens contemplativas, como a Ordem carmelita? E de forma especial para os católicos do Brasil, o que significa ter uma candidata a santa carmelita? Hoje temos quantas candidatas às santas carmelitas no mundo e no Brasil?

Frei Patrício: Os Santos e Santas são tradução viva do evangelho, são Cristos vivos entre nós, são os que nos recordam que seguir Jesus é viver o evangelho. Sem dúvida somos aspirantes a santos para uma Igreja local, de uma nação. Eu tenho trabalhado com várias carmelitas e outras religiosas. Acredito na santidade e sei que hoje devemos fazer de tudo para que o nosso povo possa fixar os olhos nestes nossos irmãos e irmãs para reanimar-se no seguimento de Jesus e na evangelização. Não podemos ficar de braços cruzados. Madre Tereza foi uma autêntica carmelita descalça, seguindo o coração de Tereza de Jesus e João da Cruz e evangelizou desde o silêncio do Carmelo de Três Pontas com a sua vida , sua palavra e sua oração. No mundo existem atualmente inúmeras Carmelitas em Processo de Beatificação e Canonização. No Brasil temos a Madre Maria José de Jesus (Carmelo do Rio), Madre Maria do Carmo (Carmelo de Tremembé) e Madre Maria Imaculada (Carmelo de Pouso Alegre).

Irmã Regina: O senhor recomendaria para os leitores de ZENIT a biografia de Madre Tereza Margarida do Coração de Maria? Por quê?

Frei Patrício: Não há dúvida que recomendo a leitura da Biografia da Madre Tereza do Carmelo de Três Pontas, para que todos nós comecemos a seguir o seu exemplo. Acredito que quem a ler não vai ficar insensível à causa de Deus, mas vai sentir em si o desejo de ser santo. Que a vida da Madre Tereza possa fazer surgir muitas vocações ao Carmelo no Brasil e no Egito. Eu rezo para a Madre Tereza e a tenho como protetora na minha vida. Que este processo possa ser radioso e que antes de morrer eu possa ver a Madre Tereza elevada a honra dos altares. Este é o meu desejo. A espiritualidade da Madre Tereza é feita de abandono e confiança em Deus e de um amor terníssimo à Virgem Mãe do Carmelo. Que ela, do Céu, nos abençoe.

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(Edição TS)