Uma voz do Opus Dei sobre a estreia de “There be dragons”

Entrevista com Marta Manzi sobre a apresentação do filme de Roland Joffé

| 2050 visitas

Por Jesús Colina

ROMA, quinta-feira, 17 de março de 2011 (ZENIT.org) - No dia 25 de março estreia na Espanha (em maio, nos EUA) o filme "There be dragons", no qual São Josemaría Escrivá, fundador do Opus Dei, é um dos principais personagens de uma aventura ambientada em grande parte durante a guerra civil espanhola.

Após entrevistar o diretor, Roland Joffé (que já dirigiu filmes como "A Missão", "Os gritos do silêncio" e "Cidade da esperança"), ZENIT quis saber a opinião do Opus Dei sobre esta produção.

Para isso, entrevistamos Marta Manzi, que trabalha desde 1992 no Departamento de Comunicação do Opus Dei em Roma, onde se ocupa das relações com a mídia internacional.

Mãe de sete filhos, é também professora de "Antropologia da diferença", na Universidade Pontifícia da Santa Cruz. Atenta às novidades da sétima arte, colabora com uma produtora italiana na análise de roteiros.

ZENIT: Você gostou do "There be dragons"? Qual foi sua primeira reação diante de um filme que apresenta o fundador do Opus Dei entre os seus principais personagens?

Marta Manzi: Aprendi muito com o olhar lúcido com que um cineasta, que se declara não-crente, aborda questões relacionadas à fé cristã e, mais especificamente, à vida de São Josemaría e as origens do Opus Dei. Joffé expressa, de forma artística, realidades espirituais profundas.

Do ponto de vista do cinema, eu acho que é um filme rico em conteúdo e emoção. O roteiro de Roland Joffé fala a todos; através das vidas paralelas de Josemaría Escrivá (Charlie Cox) e Manolo Torres (Wes Bentley), capta a atenção e interpela sobre questões como o amor, a paternidade, a possibilidade de dar um rumo diferente à sua vida, principalmente sobre um tema que considero original na narrativa atual: o perdão. Ele levanta muitas questões que, uma vez terminado o filme, continuam vivas na memória.

Como alguém que tenta transmitir a realidade do Opus Dei, eu penso: agora é a minha vez de completar o quadro e proporcionar um conhecimento direto do santo real e da sua mensagem.

ZENIT: Até que ponto o retrato que Roland Joffé apresenta sobre São Josemaría é fiel à realidade?

Marta Manzi: O filme, na minha opinião, dá um rosto convincente a esse sacerdote que eu vi em seus primeiros escritos da juventude, como "Caminho" e "Santo Rosário". Com sua abordagem artística, Joffé me ajuda a ver de maneira nova a mensagem que eu tento viver há 40 anos.

ZENIT: Do seu ponto de vista, é possível dizer que a parte referida a São Josemaría é historicamente verificável?

Marta Manzi: A maioria dos eventos narrados sobre São Josemaría correspondem a episódios documentados e, portanto, verificáveis; ao mesmo tempo, é evidente que algumas das situações e vários dos personagens com os quais ele interage são recriações do diretor e roteirista.

Não é fácil retratar uma pessoa em um filme de duas horas, por isso é necessário ter licença artística. Por exemplo: o jovem Josemaría não acompanhou a morte do judeu Honório, que aparece no filme (Derek Jacobi), mas é bem documentado que ele assistiu, na morte, muitos pacientes nos hospitais e nos subúrbios de Madri; também as palavras que o jovem sacerdote diz a Honório são muito parecidas às que ele dirigiu a judeus que encontrou em suas viagens de catequese por países da América: "Eu amo muito os hebreus - ele costumava dizer, por exemplo -, porque amo Jesus Cristo com loucura, e ele é hebreu". Percebe-se que, por trás de cada cena, há muito trabalho de documentação por parte do diretor e roteirista.

O próprio Joffe disse que tentou refletir a alma e o ‘ethos' de Josemaría, ao invés de uma história cronológica, ainda que, de fato, ele a respeite em suas linhas principais.

ZENIT: Você conheceu pessoalmente o fundador do Opus Dei. Que lembranças lhe trouxe o Josemaría interpretado por Charlie Cox?

Marta Manzi: É impressionante que um ator inglês de 28 anos me faça lembrar da pessoa que conheci no final dos anos 60. Além de traços externos, como o olhar e o sorriso, ele reflete acertadamente seu caráter forte e amigável. E a sua naturalidade: quando você estava com ele, você se sentia como um filho com seu pai. Ele não gostava muito das formalidades; não o víamos como "o fundador", mas como um sacerdote que escutava, brincava, falava de Deus e estava próximo, como também se vê no filme.

Em 1970, junto ao meu marido, eu lhe pedi conselho sobre um dilema pessoal: dedicar-me totalmente à família ou continuar uma carreira na faculdade. Ele respondeu sorrindo, num tom simpático: "Vocês, os italianos, às vezes, querem que o padre lhes dê a resposta para tudo, e este padre não vai dá-la, porque determinadas questões correspondem apenas a marido e mulher, e a mais ninguém". Ele amava a liberdade, e que cada um arcasse com sua própria responsabilidade. Lembrei-me deste episódio ao ver a resposta que ele dá, no filme, quando alguns jovens lhe pedem orientação política e ele nega, incentivando-os a usar o cérebro que Deus lhes deu.

ZENIT: Alguns interpretaram o filme como uma resposta ao "Código da Vinci". Existe alguma verdade nisso?

Marta Manzi: Seria preciso perguntar a Roland Joffé e aos produtores. Por parte do Serviço de Imprensa do Opus Dei, o "Código Da Vinci" nos levou a desenvolver uma ampla campanha de informação que fechamos em 2006; tentando não perder o bom humor, procurou-se esclarecer a confusão semeada sobre a Igreja Católica, sobre a pessoa de Cristo e sobre o Opus Dei.