Urge a leitura espiritual da Bíblia, adverte padre Cantalamessa

Em sua meditação da Quaresma ao Papa e à Cúria

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Por Marta Lago

CIDADE DO VATICANO, domingo, 16 de março de 2008 (ZENIT.org).- É importante a leitura espiritual das Escrituras para que elas «liberem de verdade para nós o Espírito que contêm», alerta o pregador da Casa Pontifícia em sua meditação da Quaresma ao Papa.

Na manhã dessa sexta-feira, na capela Redemptoris Mater do Palácio apostólico do Vaticano, o Pe. Raniero Cantalamessa, O.F.M. Cap. fechou o ciclo de pregações deste tempo litúrgico sobre o tema «Viva e eficaz é a Palavra de Deus» (Hebreus 4, 12), com o que também ofereceu uma preparação para o Sínodo dos Bispos sobre a Palavra (de 5 a 26 de outubro).

Sublinhou a importância de tomar consciência de que a Escritura não só é «inspirada por Deus», mas também «respira a Deus», «emana a Deus».

«Depois de ter inspirado a Escritura, o Espírito Santo é como que contido nela, a habita e a anima com seu sopro divino», precisou o pregador da Casa Pontifícia.

Mas «como escutar as Escrituras de modo que elas realmente “emanem” para nós o Espírito que contêm», propôs; e atualmente a tendência, ante a Bíblia, é «ficar na letra», considerando a Escritura inclusive como «o mais extraordinário livro humano».

«A Bíblia vem explicada por muitos estudiosos voluntariamente apenas com o método histórico-crítico», uma atitude que inclusive se registra nos estudiosos que se professam crentes, observou o Pe. Cantalamessa.

«A secularização do sagrado em nenhum caso se revela tão aguda como na secularização do Livro sagrado. Ora, pretender compreender exaustivamente a Escritura, estudando-a apenas com o instrumental da análise histórico-filológica, é como pretender descobrir o mistério da presença real de Cristo na Eucaristia baseando-se unicamente na análise química da hóstia consagrada! A análise histórico-crítica, ainda que se deva fazer com o máximo de perfeição, não representa, na realidade, mais que o primeiro grau do conhecimento da Bíblia, aquele resguardado à literatura».

Em «certa exegese científica», «a Bíblia feita um objeto de estudo que o professor deve “controlar”», mas neste caso único «é necessário especialmente deixar-se dominar por essa»; «dizer de um estudioso da Escritura que ele “domina” a palavra da Deus, se se pensar bem, é que quase dizer uma blasfêmia», refletiu o pregador do Papa.

«A conseqüência de tudo isso é fechar e desprender-se da própria Escritura; essa torna a ser um livro «sigiloso», um livro «velado», porque – diz São Paulo – o véu foi desvelado em Cristo, quando da conversão ao Senhor (cf. 2 Cor 3, 15-16). Sucede com a Bíblia como a certos tipos de plantas que fecham suas folhas quando algum corpo estranho as toca, ou como certas conchas que se fecham e protegem a pérola que há dentro. A pérola da Escritura é Cristo», sublinhou.

«Não se explicam de outro modo tantas crises de fé de estudiosos da Bíblia. Quando se sonda o porquê da pobreza e aridez espiritual que impera em tantos seminários e locais de formação, não se demora para descobrir que uma das causas principais é o modo como é ensinada neles a Escritura. A Igreja é viva e vive da leitura espiritual da Bíblia; quebrado este canal que alimenta a vida de piedade, zelo, fé, tudo resseca».

«Uma leitura espiritual das Escrituras» é «uma leitura com referência a Cristo», seja do Antigo ou do Novo Testamento; «é a leitura mais objetiva que existe, seja porque se baseia sobre o Espírito de Deus», realizada «sob a direção, ou à luz do Espírito Santo que inspirou a Escritura».

«Baseia sobre um evento histórico e, isto é, sobre o ato redentor de Cristo que, com sua morte e ressurreição, cumpre o projeto de salvação, realiza todas as figuras e as profecias, revela todos os mistérios escondidos e oferece a verdadeira chave de leitura de toda Bíblia», resumiu.

«Poderá a exegese, árida pelo grande excesso de filologismo, reencontrar o ardor e a vida que tinha em outros momentos da história da Igreja?»

Esse «movimento espiritual» e esse «impulso» dos primeiros séculos da Igreja, faz décadas, com o Concílio Vaticano II por meio, «ardor» começaram a se reproduzir, mas não porque o homem o houvesse programado ou previsto, mas porque o Espírito se pôs a soprar de novo, inesperadamente, dos quatro ventos sobre ossos áridos», recordou.

Assim, «contemporaneamente ao reaparecimento dos carismas, assiste-se ao reaparecimento também da leitura espiritual da Bíblia e é, também isto, um fruto, dos mais saborosos, do Espírito».

«Na leitura espiritual, mais que pretender explicar o texto, atribuindo-lhe um sentido estranho às intenções do autor sagrado, trata-se, em geral, de aplicar ou atualizar o texto» porque «as palavras de Deus não são palavras mortas», mas «vivas» e «ativas», «capazes de libertar sentidos e virtualidades escondidas, em resposta a perguntas e situações novas», indicou.

«É uma conseqüência» do fato de que a Escritura «não é só «inspirada pelo Espírito», mas «transpira» também o Espírito e o transpira em continuação, se lida com fé», concluiu.