Vaticano realiza pesquisa sobre música sacra

"Música sacra, 50 anos depois do Concílio": os requisitos específicos da música litúrgica e a beleza como elemento não só decorativo, mas constitutivo

Cidade do Vaticano, (Zenit.org) Sergio Mora | 963 visitas

A Congregação para o Culto Divino e o Pontifício Conselho para a Cultura enviaram um questionário às conferências episcopais, institutos religiosos maiores e faculdades de teologia para conhecer melhor, em perspectiva pastoral, o panorama da música sacra nas diversas comunidades.

Com o título "Música sacra, 50 anos depois do Concílio", o amplo questionário faz perguntas que vão desde os encarregados da música sacra até os instrumentos utilizados, passando pelos conhecimentos dos músicos sobre a liturgia e pelo uso ou não do canto gregoriano na liturgia dominical. Sobre a enculturação com a música local, o texto recorda o equilíbrio necessário e indica a importância da sacralidade e a correspondência com o rito que se celebra. Criticam-se as músicas ambientais de tipo “new age”, que criam estados artificiosos, e destaca-se que a música litúrgica deve “predispor a alma ao acolhimento do silêncio sacro”, porque ela “guia o indivíduo e a comunidade inteira à plena intimidade com Cristo, na qual a oração se torna adoração e canto de louvor”.

“O objetivo primário de todo caminho sério de formação deverá ser o de mostrar aos colaboradores da Igreja a missão universal a que ela está consagrada”, para, assim, anunciar o Cristo “através da humilde oferta do próprio talento”. Recorda-se também que “o patrimônio universal da música sacra guarda, para o bem de toda a Igreja, uma riquíssima herança teológica, litúrgica e pastoral”.

“O espírito de fidelidade, que conhece também a sadia audácia, deverá oferecer à Igreja contemporânea um repertório musical vivo e atual, que mostre os múltiplos percursos da arte cristã empreendidos ao longo de dois milênios e que, ao mesmo tempo, se mostre capaz de uma autêntica renovação”.

O questionário indaga como se vive o encontro com uma tradição musical proveniente de outras culturas, em tempos de globalização e de novos movimentos eclesiais, e pergunta se há um equilíbrio são entre enculturação, acolhimento e amadurecimento da própria identidade cultural.

“Eventuais concertos deverão respeitar as claras indicações do magistério”, além de “manifestarem um caráter espiritual que os reoriente, inequivocamente, ao contexto sacro”.

O documento reconhece que “a evolução das linguagens musicais impôs à sensibilidade das novas gerações, particularmente sob os impulsos da globalização, novos critérios para a escuta, participação e interpretação”, embora tais linguagens tenham, conforme indicado por Bento XVI, “a finalidade de transmitir a Mensagem da Salvação em lugares e modos concordes com o novo areópago cultural”.

O documento convida a “uma redescoberta global do sentido da música e a um aprofundamento no valor da música sacra no contexto da liturgia”, recordando, também, que “a participação plena da assembleia litúrgica requer dois animadores de toda a assembleia para se chegar à mais alta expressão de solenidade”.

“O canto e a música adquirem, no contexto ritual, um valor sacramental, já que ambos oferecem uma válida contribuição na comunicação da realidade divina cuja presença se realiza pela ação litúrgica". Por isso, “a música litúrgica deve responder aos seus requisitos específicos: a plena adesão aos textos que apresenta, a consonância com o tempo e com o momento litúrgico a que está destinada e a adequada correspondência aos gestos que o rito propõe”.

Destaca-se também que o “critério da ‘novidade na fidelidade’ orienta todo o processo de enculturação, a fim de que a música sacra, propondo ‘um canto novo’, se torne veículo de uma tradição viva e criativa”. Observa-se a necessidade de os especialistas terem a devida competência para “a adaptação da música sacra nas regiões que possuem uma tradição musical própria, particularmente nos países de missão”.

“A beleza, portanto, não é um elemento decorativo da ação litúrgica; é um elemento constitutivo, já que é um atributo do próprio Deus e da sua revelação. Conscientes de tudo isto, temos de devotar grande atenção para que a ação litúrgica resplandeça segundo a sua própria natureza”, como ressaltou Bento XVI na Sacramentum Caritatis, 35.

O texto enfatiza também que “beleza e inspiração religiosa não garantem uma plena correspondência com as exigências do rito, e a ação litúrgica pede que a música dedicada a ela possua o requisito da manifesta sacralidade (...) Como parte integrante da liturgia, a música sacra se serve da capacidade sobrenatural de favorecer e promover ‘a glória de Deus e a santificação e edificação dos fiéis’ (Pio X)”.

O documento pede cuidados com o uso de “música de caráter minimalista, definida como ‘música ambiental’ ou de estilo ‘new age’. Em não poucas ocasiões, foi usado fundo musical na adoração eucarística, em cujo marco, porém, ela não determina estados de ânimo adequados à oração pessoal”.

“A oração nos abre, pela ação do Espírito, à contemplação mística do mistério de Cristo”, mas “a música ambiental suscita estados de consciência que, de certo modo, são artificiosos e inadequados, mostrando certa familiaridade com as refinadas técnicas de manipulação da mente cuja eficácia se conhece na psicologia subliminar”.

A música litúrgica deve “predispor a alma ao acolhimento do silêncio sacro” e guiar o indivíduo e a comunidade “à plena intimidade com Cristo, na qual a oração se faz adoração e canto de louvor”.

O documento pode ser lido em www.cultura.va, que disponibiliza o questionário em português, italiano, espanhol, francês e inglês.