Venezuela: bispos exortam políticos a renunciar às "fórmulas totalitárias"

A Conferência Episcopal elege Dom Diego Pardon como novo presidente

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CARACAS, quarta-feira, 11 de janeiro de 2012 (ZENIT.org) - Começou no dia 7 de janeiro e vai até esta quinta-feira, dia 12, a Assembleia Ordinária Plenária da Conferência Episcopal Venezuelana (CEV). No discurso inaugural, o presidente em fim de mandato da Conferência Episcopal, Dom Ubaldo Santana, arcebispo de Maracaibo, refletiu sobre a realidade eclesial do país e pediu que os governantes abandonem as fórmulas políticas totalitárias, neste ano de 2012 em que estão previstas as eleições, enquanto permanece a incerteza sobre a saúde do presidente da República, Hugo Chávez.

Dom Santana recebeu calorosamente o núncio papal Pietro Parolin. "Através da sua cuidadosa e fraternal proximidade do colégio dos bispos, de cada um de nós e das nossas igrejas locais, nós sentimos a solicitude paterna do Santo Padre", disse o prelado.

 O presidente da CEV salientou, analisando o tempo decorrido, que o início da segunda década do século XXI tem sido particularmente conturbado. Em seguida, mencionou alguns dos grandes eventos mundiais e, depois, pôs o foco na realidade venezuelana.

"Vamos evitar muitos desastres e conflitos se aprendermos com os erros do passado e nos movermos em direção a novos paradigmas: a alternância no governo, abandonando as fórmulas totalitárias, a construção de democracias sociais e participativas que realmente lutem pela justiça social, pela superação da pobreza e pelo pleno gozo dos direitos humanos universais para todos os homens e todas as mulheres do planeta".

Santana denunciou que, "por causa do grande descontentamento, tem crescido de forma incontrolável a espiral da violência, tornando-se o problema que mais assusta a maioria dos venezuelanos". Tudo isto ocorre "sem que se veja ação conjunta, enérgica e eficaz dos governantes, dos organismos especializados, das organizações cívicas e religiosas para resolver, ou pelo menos para retardar, esta deriva", disse o prelado.

Como primeiro passo, "é importante desarmar a população civil, lutar de modo mais direto contra o tráfico de drogas e eliminar a corrupção das instituições públicas", disse Dom Santana.

O Presidente da Conferência Episcopal da Venezuela propôs um projeto que se baseia "no poder transformador e agregador de alicerces como a família, a educação, o esporte, o trabalho honesto, o uso dos meios de comunicação e das plataformas de tecnologia para a transmissão de valores e princípios éticos e morais como a existência e a percepção dos outros, a responsabilidade, a solidariedade, o bem comum, a subsidiariedade, a conscientização ambiental, a amizade e a convivência".

Dom Santana observou ainda que "a agitação política e social está em aumento. Protestos se multiplicaram em todo o país contra a falta de serviços públicos adequados e de produtos de primeira necessidade, contra os aumentos abusivos de preços, a despudorada lista de tributos, o mau estado das estradas e dos transportes, a insegurança nas instituições de ensino".

Todas essas reclamações "ficaram sem as respostas que se esperam e não poucas vezes foram brutalmente reprimidas", acrescentou o bispo, observando que "as muitas e contínuas eleições alimentam a corrida desenfreada pelo poder por parte dos nossos líderes e os afastam dos problemas da vida cotidiana. Devemos levantar as nossas vozes na paz, mas com firmeza, para que os políticos ouçam melhor o povo e se comprometam com a resolução dos seus problemas".

O presidente dos bispos da Venezuela também abordou a saúde do presidente Hugo Chavez, doente de câncer, declarando que "o mais desejável para as nossas instituições e para o desenvolvimento pacífico dos comícios deste ano é que o presidente recupere totalmente a sua força para cumprir esses compromissos".

Quanto aos direitos humanos, Dom Santana afirmou que no mês passado foram comemorados os 500 anos do famoso sermão de Antonio de Montesinos, religioso dominicano, pronunciado na atual República Dominicana, "em defesa da dignidade dos povos indígenas e condenando a exploração humana e os maus-tratos infligidos a eles pelos colonizadores espanhóis. A denúncia profética do religioso, apoiada pela Sagrada Escritura, marcou o ponto de partida de uma nova maneira de evangelizar 'apostolicamente' e sem a presença de homens armados, baseada na dignidade humana dos povos indígenas e no seu consequente direito de ser tratados como pessoas livres".

A respeito da igreja na Venezuela, o presidente da Conferência Episcopal disse que, "na sua curta vida, de pouco mais de 40 anos, a CEV se manteve fiel à sua natureza colegial e à sua missão". "Mas não faltou a pressão das correntes laicistas e ideológicas para limitar a nossa ação à sacristia ou à consciência individual, como a única área da nossa incumbência. Temos aprendido a assimilar essas pressões de forma positiva através da oração, a ouvir uns aos outros e a fazer o discernimento comunitário".

"O grande desafio que temos que enfrentar é perceber o quanto é grande o projeto da Nova Evangelização, de acordo com o modelo proposto pelo Conselho Plenário da Venezuela, ratificado pelas conclusões de Aparecida".

Este foi o último discurso de Dom Santana como presidente da CEV, no cargo desde 2006.

O conselho de administração da Conferência Episcopal elegeu como novo cabeça dos bispos venezuelanos o arcebispo de Cumaná, Dom Diego Padron.

O sucessor de Dom Santana disse que " Deus me pede neste momento um serviço à Igreja, e o pede através dos meus irmãos, os bispos da CEV. É assim que eu interpreto e é assim que eu vou aceitar".

"Tenho certeza de que é um esforço de equipe. Eu simplesmente vou presidir um grupo, levando em conta o que foi feito pelos meus predecessores, que desenvolveram um excelente trabalho. Estou confiante de que com o exemplo do meu predecessor, com a oração e o apoio dos irmãos, o órgão que vou presidir poderá responder ao que Deus quer neste momento ", disse Dom Padron.

O novo presidente dos bispos da Venezuela será acompanhado na junta diretiva por Dom José Luis Azuaje, bispo de San Carlos del Zulia, como primeiro vice-presidente, e por Dom Maria del Valle Moronta como segundo vice-presidente. O novo secretário-geral da CEV é o Dom Jesús González de Zarate, bispo auxiliar de Caracas.