Viagem à Terra Santa: o tradutor do Papa fala sobre o que saiu da programação

Entrevista com o sacerdote Silvio de la Fuente, frade franciscano da Custódia da Terra Santa

Roma, (Zenit.org) Sergio Mora | 375 visitas

Durante a visita do Papa Francisco a Jerusalém, foi possível ver que um franciscano era o seu intérprete com o hebreu e o árabe. Trata-se do sacerdote argentino Silvio de la Fuente, nascido em Buenos Aires, frade franciscano da Custódia da Terra Santa. ZENIT pôde entrevistá-lo por telefone e nos relatou alguns detalhes interessantes que compartilhamos a seguir com os nossos leitores.

ZENIT: Qual saída da programação do Papa você poderia nos dizer?

- Frei Silvio: Houve vários sinais pequenos, mas muito bonitos por parte do Santo Padre, como o fato de que tenha vindo almoçar no nosso convento. Foi uma coisa fantástica, especialmente porque veio compartilhar ‘o que acontece em um convento’, não foi um almoço de luxo, ou seja, que comeu o que é servido habitualmente.

ZENIT: Mas, essa visita não estava programada, não é verdade? Havia um outro almoço oficial?

- Frei Silvio: Nesse dia tinha que ir ao Notre Dame Center, é um hotel que fica em frente do convento dos freis, um hotel muito bonito que os Legionários de Cristo têm e onde vão muitas personalidades, e, até mesmo com uma cozinha de alto nível. O Santo Padre, falando com o núncio apostólico, que lhe contou tudo o que fazíamos, quis estar conosco e assim tivemos o privilégio de tê-lo aqui. Uma pequena parte da delegação veio ao convento, entre eles estava o patriarca Latino, Fuad Twal, e o secretário de estado, Pietro Parolín. Ou seja, que parte da comitiva papal almoçou no Notre Dame Center, embora as pessoas e as outra comunidades que o Papa iria encontrar neste hotel, recebeu-as de qualquer forma. Não decepcionou ninguém.

ZENIT: Vocês cumprem um papel importante em Jerusalém como Custódia da Terra Santa...

- Frei Silvio: Bem, estamos no Oriente Médio desde 1217, a maioria dos santuários da região são atendidos por nós, por vontade da Santa Sé.

ZENIT: E qual foi a sua impressão do abraço, em frente ao muro, de Francisco com o rabino Skorka e o xeique Abboud?

- Frei Silvio: Foi incrível ver os três filhos de Abraão, porque nas três religiões monoteístas reconhecemos nele um pai comum. Foi muito simbólico: nossos irmãos maiores estavam no muro das lamentações, nossos irmãos menores acima na explanada da mesquita, e o Papa Francisco abraçando os dois.

ZENIT: Como é que se vive o diálogo inter-religioso em Jerusalém?

- Frei Silvio: Existem dois níveis de ecumenismo e diálogo inter-religioso, o teológico ou, se queremos, mais científico, e outro, que é o da convivência diária, que se você precisar, por exemplo, de um pão vai ao padeiro que é muçulmano, ou se você precisa de um azeite vai ao comércio de um judeu. Afinal, esta é também uma convivência inter-religiosa, e ninguém fica discutindo teologia. Esse contato diário abre ao diálogo e esses gestos simples, mas muito significativos, que Francisco realizou, afirmam e reforçam algo que os frades e muitas pessoas na Terra Santa, fazem há muito tempo.

ZENIT: A impressão que se tem é que existem muitos fundamentalistas, ou esses são minorias?

- Frei Silvio: Dou-lhe um exemplo: quando estudava hebreu no Ulpan Milah também haviam muçulmanos que o faziam lá. Uma das dinâmicas foi levar fotos das nossoas famílias para apresenta-las e assim praticar o idioma. E foi bonito ver como cada um apresentava a sua família ou os seus filhos e como um muçulmano com barba, que podia ser mais ortodoxo, mostrava fotos dos seus filho e outros que eram judeus também ortodoxos compartilhavam as suas fotos, e depois tomavam um café juntos e se perguntavam pelos familiares, etc, em um clima de grande serenidade e amizade.

ZENIT: Alguma coisa que mais tenha impressionado do Papa?

- Frei Silvio: A verdade é que me impressionou muito a abertura e gentileza do Santo Padre com todos. Depois de todas as visitas que realizou, subimos ao avião e vieram os que faziam o serviço de bordo, o Papa tirou uma foto com cada um deles, depois começou a rezar. Em seguida foi à coletiva de imprensa, e os do serviço de bordo pediram-lhe um autógrafo e falava com eles... e ele aceitou tranquilamente depois de três dias de uma visita tão cheia. E sempre dando sinais de simpatia com os demais. Ele mesmo disse que às vezes bastam gestos simples, como um sorriso, para que a relação entre duas pessoas surja ou melhore.

ZENIT: O Papa encontrava tempo para orar em meio a uma agenda tão apertada?

- Frei Silvio: Na verdade , quando estávamos no carro ou helicóptero, ou até mesmo no avião, ele ia rezando, ou com o breviário na mão ou com santo terço. Às vezes, me perguntava algo o eu lhe perguntava ou compartilhava algo com ele, em outras ocasiões simplesmente rezava.

(Trad.TS)