Vice-presidente do Parlamento Europeu: cristianismo e futuro da Europa (II)

Entrevista a Mario Mauro

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Por Antonio Gaspari

BRUXELAS, quarta-feira, 30 de janeiro de 2008 (ZENIT.org).- As doze estrelas da bandeira da União Européia provêm da devoção a Nossa Senhora, afirma Mario Mauro, vice-presidente do Parlamento Europeu, na segunda parte da entrevista concedida à Zenit sobre o futuro da Europa e o papel do cristianismo neste processo.

Mauro é professor de História das Instituições e autor do livro em italiano «O Deus da Europa» («Il Dio dell’Europa», Edições Ares, 2007).

A primeira parte da entrevista foi publicada pela Zenit em 28 de janeiro.

-Após a multitudinária manifestação de apoio à família que se viveu na Itália em 2007 («Family Day»), está tendo um certo êxito a proposta de moratória do aborto lançada pelo jornal italiano «Il Foglio». O que você opina disso?

- Mauro: Como em Londres, Madri, Paris, Estrasburgo, também em Roma os italianos saíram às ruas para reafirmar uma idéia de vida e de família «alternativa» aos modelos que a sociedade e a política estão tentando impor-nos. Um modelo que situa no centro o homem e sua busca da verdade.

Que país será a Itália dentro de 30 anos? É uma pergunta que afeta todos, de direita e de esquerda, católicos e aconfessionais, como afeta todos a evidente deterioração da sociedade italiana e sua clamorosa fraqueza na formação das novas gerações.

Porque se uma sociedade livre não consegue formar novos indivíduos capazes de dirigir responsavelmente a liberdade, estará fatalmente destinada a ver como cresce seu nível de autoritarismo.

Recordei antes o recente discurso do Santo Padre que, em 7 de janeiro, fazia um chamado à comunidade internacional para que a moratória aprovada pela ONU sobre a pena de morte possa estimular o debate público sobre o caráter sagrado da vida humana. Em 8 de janeiro, Giuliano Ferrara [diretor do jornal], em «Il Foglio», recolhe este pedido e lança uma proposta de moratória do aborto que suscita um animado debate.

Eu gostaria que os governos nacionais e os organismos internacionais esclarecessem o uso ambíguo de termos como «saúde reprodutiva», que em suas aplicações tendem a converter as práticas abortivas em um comportamento padrão. As instituições internacionais, como as Nações Unidas e a UE, não podem transformar-se em uma espécie de supermercado dos direitos; nasceram para favorecer a paz e o desenvolvimento, ou seja, para tutelar a vida humana e para garantir a legitimidade de um direito natural que toda a humanidade vai ter como referência.

-Junto a Elisa Chiappa, você escreveu o livro em italiano para crianças «Pequeno dicionário das raízes cristãs da Europa» («Piccolo dizionario delle radici cristiane d’Europa», edições Ares). Que histórias, personagens e imagens você usaria para explicar a Europa cristã às crianças?

- Mauro: Com este livro, Elisabetta e eu procuramos contar às crianças sobre a União Européia de hoje, a Europa que foi e que através dos séculos chegou a uma fisionomia concreta, e a Europa que será, para fazer-lhes compreender o mundo e a civilização em que nasceram e à qual, quando adultos, oferecerão sua contribuição.

Tentamos fazê-lo mediante um dicionário, palavras escolhidas com cuidado e explicadas não só por um texto bonito, mas pelas belíssimas imagens de Benedetto Chieffo. Para tornar ainda mais simples e interessante o conhecimento da Europa, o livro tem um anexo com «Eurovia», um jogo sobre a bandeira européia que propõe uma corrida atrativa e instrutiva através de todos os países da União.

Estou certo de que a identidade civil e nacional da Europa tem suas raízes culturais e religiosas em uma tradição bimilenar. Temos de ser capazes hoje de dizer o que somos. Em que acreditamos.

Para ter uma Europa melhor, devemos voltar a crer, trabalhar, mobilizar-nos por ela. A Europa nasce cristã, sob a proteção de São Bento de Núrsia, dos santos Cirilo e Metódio, Santa Catarina de Sena, Santa Brígida, Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein); não podemos deixar que seja presa de mistificações e manipulações.

Basta um exemplo. A referência ao cristianismo está inclusive no símbolo por excelência, a bandeira, porque as doze estrelas provêm do culto a Nossa Senhora e estão desligadas do número de estados aderentes. Nem todos sabem, porque a verdadeira origem da bandeira com doze estrelas foi objeto de um esquecimento culpável dentro das instituições comunitárias.

É necessário, em poucas palavras, outro passo: existe a oportunidade para toda uma sociedade de reencontrar-se e de reencontrar a própria identidade, o próprio rosto, e também a própria finalidade, a razão pela qual somos o que somos. Temos ou não temos o dever de responder a este desafio? O dicionário tem o sentido de esclarecer e restituir o significado das palavras que definem a Europa, um primeiro passo para o desafio ao qual estamos chamados.

-Na quinta-feira, 10 de janeiro, você presidiu a sessão plenária para a assinatura da Carta dos Muçulmanos Europeus e pronunciou o discurso introdutório. Pode dizer-nos em que consiste? O que significa este documento no ano que a UE dedica ao diálogo inter-religioso, do qual você é delegado? Você previu outros momentos de confrontação e debate?

-Mauro: Mais de 400 organizações muçulmanas de 28 países do continente, inclusive a Turquia, assinaram a Carta dos Muçulmanos da Europa, elaborada por iniciativa da Federação de Organizações Islâmicas da Europa.

Nos 26 pontos do documento, são recordados os direitos e as responsabilidades dos muçulmanos, convidados a «uma integração positiva»; sanciona-se a paridade entre homem e mulher e se rejeita o terrorismo fundamentalista.

A Carta é um código islâmico de boa conduta, compromete a comunidade muçulmana européia a participar na construção de uma Europa comum e de uma sociedade unida, a participar também no desenvolvimento da harmonia e do bem-estar em nossas sociedades e a desenvolver plenamente o papel de cidadãos no respeito à justiça, à igualdade de direitos e à diferença. Pela primeira vez, uma Carta dá um código de conduta aos muçulmanos da Europa, que não deve estar em contradição com as legislações européias. É um ótimo impulso ao reforço do diálogo intercultural e inter-religioso, também à luz da insistência no dever que o muçulmano tem de respeitar o não-muçulmano. É esperançoso que na Carta dos direitos haja uma parte dedicada à família como condição indispensável para a fidelidade dos indivíduos e para uma sociedade estável, e que inclua a abertura a uma paridade entre homem e mulher.