Vigário de Jerusalém: Demonstrar que é possível viver juntos

O vigário do Patriarcado Latino de Jerusalém, David M. Neuhaus explicou a ZENIT que é necessário propor uma nova linguagem criativa e espalhá-la especialmente entre os jovens

Roma, (Zenit.org) Sergio Mora | 392 visitas

A situação é dramática na Terra Santa. A trégua proposta pelo Egito nesta terça-feira não foi respeitada. Hamas quebrou o pacto com seus mísseis e mais tarde Israel recomeçou a bombardear. Nesta mesma terça-feira, ZENIT entrou em contato com o vigário do Patriarcado Latino de Jerusalém, David M. Neuhaus, e lhe perguntou sobre a situação que existe e que saída pode se ter.

O padre jesuíta disse que o documento recente da Comissão Justiça e Paz da Assembleia de Católicos Ordinários da Terra Santa focou muito bem a temática ao recordar que "Israel e Palestina fazem eco dos gritos das mães e pais, irmãos e irmãs, dos entes queridos das vítimas dos jovens vítimas da recente onda de violência que assola esta terra”. Na verdade, acrescentou o responsável pelo vicariato de Israel para os católicos que falam a língua hebraica, todos clamam ao céu, pedindo ao Senhor para curar esta terra ferida e que sangra, que tem testemunhado uma explosão de violência.

"Por que somos incapazes de sair desses longos ciclos de violência?", foi o que se perguntou o padre Neuhaus. E reconheceu que, como indicado no documento da Comissão Justiça e Paz, há um problema fundamental: uma linguagem de violência que dominou completamente o discurso político em Israel e Palestina: "Temos a esperança de acabar com o ciclo de violência que destrói pela linguagem irresponsável de punição coletiva e a vingança que gera violência e sufoca o surgimento de qualquer alternativa".

O padre jesuíta, nascido em uma família judia, e que aos 15 anos decidiu converter-se à fé católica, o que conseguiu aos 25, conforme acordado com os seus pais, lembrou que "a origem da violência está na rejeição do outro que perpetua a injustiça e disse que essa rejeição ganha força na contínua ocupação israelense de terras palestinas", porque, como diz o documento de Justiça e Paz: 'novos assentamentos são construídos, as terras são confiscadas, as famílias são separadas, os entes queridos são presos e até mesmo assassinados. A liderança de ocupação parece acreditar que a ocupação pode ser vitoriosa com o esmagamento da vontade do povo pela liberdade e dignidade ".

E lembrou que dentro da sociedade palestina, há aqueles que se aproveitam desta situação desesperadora, promovendo uma ideologia de vingança e raiva: “a linguagem violenta é alimentada pelas atitudes e expressões daqueles que perderam toda esperança de chegar a uma solução justa no conflito por meio de negociações".

Então, disse o vigário, em tal situação é extremamente difícil humaniza-los superando as várias paredes de inimizades e, assim, começarem um processo de diálogo. A maneira de quebrar o círculo vicioso da violência é encontrar uma nova linguagem para descrever o mundo em que vivemos. A nossa linguagem atual de violência se baseia nas categorias de "auto-defesa" e "inimigo".

"O desafio - continuou o coordenador da Pastoral dos Migrantes – é propor uma nova linguagem criativa e difundi-la especialmente entre os jovens". E recordou que o Papa Francisco na oração pela paz no Vaticano, no dia 08 de junho de 2014, gritou: "Ouvimos um chamado, e temos que responder: o chamado a romper com o espiral de ódio e violência; de dobrá-lo com uma só palavra: ‘irmão’. Mas, para dizer essa palavra, todos temos devemos olhar para o céu, e reconhecer-nos filhos de um mesmo Pai”.

O responsável do vicariato de Israel para os católicos de língua hebraica, disse que "a Igreja na Terra Santa é uma parte muito pequena da realidade. Os cristãos são apenas cerca de 2 por cento da população. No entanto, Deus plantou a semente da fé em todos os lados das paredes de inimizade. Somos palestinos ou israelenses, árabes ou de origem judaica, parece-me que o Senhor nos convida a uma missão muito especial” e lembrou a carta aos Efésios quando diz  ‘Cristo é a nossa paz; ele uniu os dois povos em um só, derrubando o muro de inimizade que os separava, e abolindo na sua própria carne a Lei com os seus mandamentos e regulamentos’.

"Sendo tão marginal - afirmou Mons. Neuhaus – temos uma enorme liberdade das amarras do poder e da riqueza. Podemos e devemos assumir a missão de mostrar ao povo fiel o que é possível fazer. Porque nossas vidas como cristãos tem que refletir de modo claro que é um mentira a ideia propagada por todos os lados de que a paz e a justiça, a convivência, o perdão e a reconciliação são impossíveis. Nós temos que encontrar caminhos criativos e generosos que demonstrem, pelo contrário, que é possível viver juntos”.

Concluiu afirmando que "ao banir termos: 'vingança', 'guerra', 'inimigo', e fazendo nossas as palavras ‘perdão’, ‘diálogo’ e ‘irmãos’, seja que estejamos com quem fala árabe ou com quem fala hebraico; estejamos na paróquia de Gaza ou de Beer Sheba, daremos testemunho do que acreditamos no ‘deserto da escuridão e da morte’ para que possa tornar-se ‘um jardim onde a vida floresce’.

De fato, temos que reconhecer que, vivamos na Terra Santa ou não, as nossas palavras criam os mundos em que vivemos. Nós precisamos construir juntos a paz e justiça assumindo a responsabilidade pelas palavras que saem da nossa boca. As palavras que nós pronunciamos contém ódio e ira, ou transparecem respeito e cura? Que nossas palavras sejam tijolos com os quais contribuímos para a edificação do Reino dos Céus. (Trad.T.S.)