Vinte anos depois do genocídio, uma nova Ruanda está surgindo

O país parece avançar no caminho do desenvolvimento, embora as feridas ainda não tenham cicatrizado de todo

Roma, (Zenit.org) Filippo Romeo | 284 visitas

A lembrança dos cem dias de matança atroz cometida há 20 anos em Ruanda foi marcada pelo acendimento de uma chama simbólica na capital, Kigali, no último dia 7 de abril. A guerra bárbara e fratricida, travada entre as etnias hutus e tutsis com o uso de armas brancas como facões, paus, machados e facas, deixou um saldo de 800.000 vítimas. O derramamento de sangue tribal foi consumado sob o silêncio ensurdecedor da “comunidade internacional”, que hoje pode ser apontada como a principal responsável pelo genocídio, com especial destaque para a postura culpável da França e dos Estados Unidos.

São eloquentes, a propósito, as recentes declarações do secretário geral da ONU, Ban Ki-Moon. Durante a cerimônia memorial em Kigali, ele declarou que “o genocídio permanece como uma vergonha para as Nações Unidas”. Esta frase se compara às pronunciadas no passado por seu homólogo Boutros Ghali, que, depois de reconhecer o seu fracasso pessoal, observou que o caso de “Ruanda é um fracasso não só para a ONU, mas para toda a comunidade internacional. Somos todos responsáveis por este desastre”.

Vinte anos depois e apesar de ainda permanecerem muitas sombras quanto às responsabilidades pela tragédia, ficou mais claro que, tal como ocorre na maior parte das guerras tribais que sangram o continente negro, o enfrentamento entres hutus e tutsis teve como pano de fundo uma guerra de poder entre a França e os Estados Unidos, que visavam garantir pontos estratégicos e áreas de influência na região dos Grandes Lagos.

A divisão entre os dois grupos, que, diferenças sociais à parte, compartilham língua, cultura e religião, tem suas raízes no início dos anos 1920, induzida pelos colonos belgas que tentavam controlar a região através da estratégia do “divide e vencerás”. Começou uma clara separação entre as comunidades, alimentada por uma ideologia racista. Os tutsis, minoria dedicada ao pastoreio e representante de 14% da população próspera do país, acabaram se transformando nos “eleitos”, em detrimento da maioria hutu, que constitui a classe camponesa.

As coisas permaneceram assim até 1962, quando Ruanda foi abandonada pela Bélgica. Foi uma oportunidade preciosa para os hutus se organizarem e tomarem o poder, mantido até os anos 1990. No fim da década de 1980, a queda no preço do café e as intervenções sucessivas do FMI e do Banco Mundial tinham provocado a crise econômica e uma nova radicalização das tensões em Ruanda. Os próprios hutus se dividiram. A Frente Patriótica Ruandesa (FPR), formada na vizinha Uganda durante a diáspora dos tutsis e fortemente militarizada e politizada, tentou invadir o país.

A tensão cresceu dramaticamente, alimentada pelas autoridades governamentais, que, além de difundirem uma psicose generalizada, investiram no treinamento do exército e na compra de armas, tudo com o apoio do governo francês, então encabeçado por François Mitterrand. O clima exacerbado chegou à culminação na tarde de 6 de abril de 1994, quando a explosão do avião em que viajava o então presidente ruandês provocou o começo dos trágicos massacres ao longo dos cem dias seguintes, só encerrados após a intervenção da FPR, comandada pelo presidente Paul Kagame.

Muitos analistas afirmam que as operações da FPR foram apoiadas pelas forças especiais dos Estados Unidos e da CIA, que deram ao grupo os mísseis terra-ar de fabricação russa para atingir o avião presidencial. Segundo os mesmos analistas, o objetivo dos Estados Unidos era minar a influência da França, que tinha conquistado lugares estratégicos no país, e substituir o governo de então por um governo pró-americano. A finalidade era estabelecer em Ruanda uma espécie de protetorado, que permitisse aos Estados Unidos manter um ponto de apoio estratégico na África Central.

Vinte anos depois dos trágicos episódios, Ruanda é hoje um país normalizado que quer se reerguer e se redimir. Indicativa, neste sentido, é a taxa de crescimento econômico de 6,5%. A produção de café tem melhorado muito e existe a presença de numerosos empresários estrangeiros que querem investir no país. Relevantes são também as receitas da indústria da mineração extrativa, que, desde a época da colonização belga, deu ao país um papel de considerável importância. Nos últimos anos, chegou ao seu auge a indústria ultratecnológica que transformou o coltan num precioso recurso estratégico. Trata-se da combinação dos minerais columbite e tantalita, muito usada na composição de capacitores empregados na maioria dos eletrônicos portáteis, como celulares e notebooks.

Ruanda vem conseguindo desenvolver este setor apesar do contrabando de minerais do Congo, o que torna difícil diferenciar entre a produção local e o que é roubado no país vizinho. Sobre isto, a Conferência Internacional da Região dos Grandes Lagos (ICGLR) tentou estabelecer um mecanismo de rastreamento, que permita a todos os países-membros demonstrar a origem oficial dos minerais a fim de exportá-los.

Com base nos dados atuais, muitos analistas enxergam uma Ruanda que, vinte anos depois do genocídio, ruma para o desenvolvimento apesar das feridas, ainda não cicatrizadas de todo. As tensões, aliás, poderiam voltar a explodir devido a rusgas com países vizinhos como a Tanzânia e a República Democrática do Congo, além de tentativas de desestabilizar o atual regime do presidente Paul Kagame.