Viver extraordinariamente o cotidiano

A liturgia nos ensina a importância do cotidiano, iluminado pela presença de Cristo Ressuscitado em nosso dia a dia

Rio de Janeiro, (Zenit.org) Card. Dom Orani Tempesta, O.Cist. | 1107 visitas

Atualmente estamos vivendo na liturgia o Tempo Comum. Isso pode dar ideia de não ser um momento importante dentro do ano litúrgico. Porém, não é essa a realidade. Cada tempo litúrgico tem sua importância e necessidade. É um tempo no qual Deus continua nos santificando. Tempo comum em que o homem se encontra com Deus que no Verbo Encarnado, celebrado no Natal, tornou-se próximo de nós. Tempo comum em que nos encontramos com nossos irmãos e irmãs seja na Igreja, seja no trabalho, ou nas nossas tarefas cotidianas, desde as mais simples às mais complexas, e fazemos desse tempo uma oportunidade de viver extraordinariamente o dia a dia. Após o tempo do Natal iniciamos este momento litúrgico que, após a celebração da Quaresma e Páscoa, continua após Pentecostes até o próximo Advento. É o tempo mais extenso que vivemos durante o ano litúrgico. Recorda-nos que os mistérios que celebramos, Encarnação (Advento e Natal) e Redenção (Quaresma e Páscoa), devem ser encarnados na história de cada dia, na caminhada da Igreja.

Muitas vezes não percebemos a importância das tarefas comuns, o que nos leva a dar mais atenção aos momentos extraordinários. No entanto, a vida de cada um de nós, embora tenha momentos marcantes, é vivida no cotidiano. E a liturgia nos ensina a importância do cotidiano, iluminado pela presença de Cristo Ressuscitado em nosso dia a dia. Dessa forma, a liturgia diária nos faz perceber e experimentar sempre mais a presença do Senhor em nossas vidas. É o tempo em que vemos os sinais dos nossos irmãos e irmãs que seguiram a Cristo em todas as épocas e situações e são até hoje sinais e exemplos para nós – os Santos – demonstrando que assim como no passado, ainda hoje somos chamados a viver na fidelidade ao Evangelho, no seguimento de Jesus Cristo.

Em todas as épocas históricas, em todos os tipos de política, com liberdade religiosa ou com perseguições, dentro das mais diferentes ideologias, em qualquer situação de crise econômica ou cultural, a Igreja continua perseverando na fé e vivendo o alegre seguimento e anúncio de Jesus Cristo, o Senhor e Salvador.

Celebraremos assim a nossa liturgia na simplicidade e no louvor próprio deste tempo e, por isso, viveremos a graça na nossa vida comum, fazendo dos dias normais, dias de grandes bênçãos.

Os evangelhos também nos apresentarão a vida cotidiana de Jesus, as suas caminhadas, o estar com os discípulos, o tempo de oração, as idas aos locais de culto.

Aos domingos, a que chamamos Tempo Comum, são de suma importância para nossa vida espiritual. A Igreja nos recorda que é a Páscoa semanal. É o dia do Senhor, quando a comunidade se encontra em torno ao altar na escuta da Palavra de Deus e ao partir o Pão. Tão importantes, que sem eles não poderíamos compreender a totalidade da vida de Cristo, e que se reportam sempre à Páscoa. Sem dúvida que o alimento da Eucaristia ocupa o centro de nossa vida litúrgica, e sempre somos chamados a buscar “estar com o Senhor” nesse augustíssimo sacramento. Porém, hoje gostaria de refletir sobre a importância da escuta da Palavra e a riqueza que a liturgia da Igreja contém ao nos dar oportunidade de ouvir toda a Sagrada Escritura nas celebrações litúrgicas.

O Tempo Comum, que se inicia após a festa do Batismo do Senhor, é composto por 33 ou 34 semanas do ano que nos fazem refletir e aprofundar os grandes mistérios celebrados nos assim chamados “tempos fortes”: Advento e Natal – encarnação – e a Quaresma e Páscoa – paixão, morte e ressurreição – a nossa redenção.

Portanto, o Tempo Comum nos reporta gradativamente àqueles grandes mistérios, na medida em que nos apresenta a vida pública de Jesus, ou seja, a sua obra de salvação. É o caminhar com Cristo durante o ano, acolhendo o anúncio da boa notícia em nossa vida cotidiana.

O fato de o Tempo Comum vir após o Batismo do Senhor e de Pentecostes nos levar, na primeira parte, a refletir sobre a vida pública de Jesus e a sua missão e, na segunda, sobre a caminhada histórica da Igreja que continua a missão do Senhor, iluminada pela ação do Espírito Santo. Também nos ajuda a apreciar melhor a liturgia no seu desenvolvimento progressivo, episódio após episódio, toda a vida histórica de Jesus, seguindo as narrativas dos Evangelhos.

Temos hoje uma grande riqueza na celebração dominical, pois com a reforma litúrgica pós-conciliar foi introduzida uma distribuição dos evangelhos sinóticos ao longo de três anos, um para cada ciclo (A, B e C ), ou seja, o conteúdo de cada evangelho que desenvolve a vida e a pregação do Senhor. O Evangelho de João é lido no tempo pascal e inserido principalmente em alguns domingos do ano B. Isso proporciona uma harmonia entre o significado de cada evangelista e, também, a evolução do ano litúrgico. Assim, o cristão pode celebrar todos os passos de Jesus não só num ano específico, mas ao longo da vida. E ao final de três anos, o católico que participa da missa dominical terá ouvido todos os Evangelhos com as devidas ligações e interações com os outros textos do Antigo e Novo Testamento, proclamados nas primeiras e segundas leituras das missas.

Domingo após domingo, vamos sendo apresentados à Pessoa de Jesus, na normalidade de sua vida, na simplicidade de seus dias, nos seus gestos do dia a dia, com todo seu ensinamento e a consistência de suas escolhas. Nos dias feriais – durante a semana – o esquema das leituras é diferente, pois temos seis dias para ler em um ano todos os quatro evangelistas, e em dois anos os demais livros do Antigo e Novo Testamento (ano par e ano impar). Além das celebrações especiais dos santos, das solenidades do Senhor, de Maria, da Igreja.

O mistério de Jesus vai sendo revelado a cada dia em nossas vidas, chamando-nos a alimentar-nos dessa presença que nos transforma e conduz a ser fermento no meio da massa no nosso dia a dia. Na sequência litúrgica temos também um retrato profundo e vivo de Jesus, o Filho de Deus que se fez homem e habitou entre nós.

Jesus nos envia pelas estradas do mundo para que, no cotidiano, nos empenhemos na nova evangelização e formemos novos evangelizadores. Nós nos apresentamos ao Senhor, como os Apóstolos, com a consciência da nossa pobreza e das necessidades da Igreja: "Mestre, trabalhamos a noite inteira e não apanhamos nada" (Lc 5,5). Mas, sobretudo "por causa da sua palavra", no nosso cotidiano queremos crer e esperar que, como então, ainda hoje o Senhor pode encher as barcas de seus apóstolos com uma pesca milagrosa, e transformar cada crente num pescador de homens.

Sigamos o Mestre na sua vida diária. Aproveitemos desse tempo como tempo de fidelidade, de constância, firmando nossa vida na própria vida de Jesus.

Por isso, é importante a nossa presença à missa dominical e, quando possível, também na missa diária. Com certeza, é um sinal de fidelidade a Jesus, e o desejo de seguí-Lo não só em ocasiões especiais, mas também na simplicidade do nosso cotidiano. Veremos como aos poucos nossas vidas, iluminadas pelas celebrações litúrgicas, se transformam no acolhimento d’Aquele que se fez próximo de nós para nos conduzir ao Pai.