KÖNIGSTEIN, sexta-feira, 10 de julho de 2009 (ZENIT.org ).- A Igreja Católica, graças ao seu compromisso pelo bem comum e pela democracia, converteu-se na grande promotora do diálogo em meio à gravíssima crise institucional padecida por Honduras, explica uma representante de Ajuda à Igreja que Sofre.
María Lozano, colaboradora desta associação pontifícia de caráter internacional, com especial competência sobre a América Latina, nesta entrevista desfaz alguns dos mal-entendidos que levaram a levantar críticas injustificadas à Conferência Episcopal desse país.
Após um contato de primeira mão com o cardeal Óscar A. Rodríguez Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa e presidente da Conferência Episcopal, María Lozano explica que está desempenhando um “papel neutro, sem tomar partido”, para que “se chegue a um diálogo entre as partes envolvidas”, buscando a reconciliação.
--É verdade que a Igreja em Honduras apoia a decisão da Corte Suprema de Justiça de que o presidente Manuel Zelaya não volte ao país?
--María Lozano: Aqui seria preciso diferenciar duas coisas. Por um lado, a Conferência Episcopal estudou detalhadamente os fundamentos jurídicos do que está acontecendo em Honduras e chegou à conclusão de que as instituições estatais atuaram realmente em conformidade com a constituição. No entanto, o fato de que os bispos recomendem ao presidente Zelaya que por enquanto não volte não tem nada a ver com esta avaliação jurídica. A proposta da Conferência Episcopal pretende evitar a violência no país. A prudência desta postura se manifestou no domingo, quando Zelaya tentou voltar ao país e houve dois mortos. Mas não acho que os bispos estejam contra o retorno do deposto presidente. No demais, a Conferência Episcopal exigiu um esclarecimento detalhado sobre as circunstâncias da saída forçada de Zelaya à Costa Rica no dia 28 de junho.
--Por que o parlamento depôs o presidente Zelaya?
--María Lozano: Antes de chegar a esta decisão, houve uma série de escândalos de corrupção em torno de Zelaya. A gota d’água e a razão pela qual o presidente foi deposto é que ele pretendeu emendar a constituição valendo-se de um referendum e conseguir assim uma prolongação do seu mandato presidencial. Este conclui dentro de poucos meses, e a constituição não prevê uma reeleição direta. Apesar da proibição pelo Supremo Tribunal, Zelaya insistiu em realizar o referendum. A situação se agravou quando Zelaya deu ordem às forças armadas de apoiá-lo no desenvolvimento logístico deste referendum oposto à constituição. A chefatura militar reagiu democraticamente, rejeitando a ordem presidencial, o que foi apoiado pela Corte Suprema de Justiça. Zelaya reagiu com a deposição da chefatura militar. Chegado este momento, estava claro que o Parlamento tinha de atuar.
--Qual é o papel da Igreja neste conflito?
--María Lozano: Falamos nestes dias com o cardeal Rodríguez Maradiaga, que é presidente da Conferência Episcopal. Ele destacou especialmente que quer desempenhar um papel neutro, sem tomar partido. Deseja sobretudo que se chegue a um diálogo entre as partes envolvidas e fez um convite à reconciliação. Isso não impede que tente clarificar e chamar as coisas pelo seu nome. Mas também isso foi frequentemente mal-entendido e interpretado de forma unilateral na mídia.
--O que se pode esperar se o presidente Manuel Zelaya não voltar?
--María Lozano: Acho que ele deveria voltar, pois do contrário a situação em Honduras nunca será estável. A única pergunta é como e quando deve ser a volta. Como vítima e acompanhado por políticos estrangeiros que querem vê-lo novamente no poder? Ou com acompanhamento de observadores neutros, dispostos a encontrar uma solução justa e pacífica? Isso é o que seria de desejar.
--Como poderia ser esta solução?
--María Lozano: As eleições estão previstas para novembro. Talvez poderiam ser antecipadas, ou talvez também estabelecer um governo de transição. Seria preciso esclarecer, além disso, como e por que Zelaya foi levado para fora do país. Se isso tivesse sido anticonstitucional, deve haver alguém que assuma a responsabilidade. Em todo caso, convém chegar, em Honduras mesmo, sem interferência do exterior, a uma solução democrática. A anunciada mediação do presidente da Costa Rica, Óscar Arias, poderia oferecer uma solução ao conflito. Em 1987, Arias recebeu o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços em pacificar a América Latina, talvez sejam as negociações que começaram uma medida de esperança.
















