ZP09111901 - 19-11-2009
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Ofensa da Igreja aos artistas: recorrer a obras de arte medíocres


Entrevista com Pascal Fagniez, autor de “João Paulo II e os artistas”


ROMA, quinta-feira, 19 de novembro de 2009 (ZENIT.org).- Alguns dias antes do encontro de Bento XVI com os artistas, a 21 de novembro próximo, na Capela Sistina, publicamos uma entrevista com Pascal Fagniez, autor do livro em francês “Jean-Paul II et les artistes”, publicado em 2007 por Editions de l'Emmanuel.

Desenhistas, fotógrafo e cantor, Pascal Fagniez é sacerdote da diocese de Cahors, a serviço dos artistas na Comunidade do Emmanuel.

–Os artistas hoje quase não se interessam por religião. Que a Igreja pode fazer para mudar isso?

–Pascal Fagniez: Pode-se efetivamente falar de um tipo de divórcio. Mas é inegável a existência de uma história de amor entre a arte e o Evangelho. Uma história que não está a ponto de encerrar. A Igreja se beneficiou sempre do talento dos artistas ao mesmo tempo que ela foi para eles uma fonte inesgotável de inspiração. É verdade que em torno ao século XX há a ruptura. A arte assumiu sua autonomia com o risco de cair sob a influência de novos mestres implacáveis: a mercantilização e o egocentrismo. 

Uma das respostas da Igreja: o diálogo. João Paulo II escreve em sua Carta aos artistas: “o Concílio Vaticano II lançou as bases para uma renovada relação entre a Igreja e a cultura, com reflexos imediatos no mundo da arte. Tal relação é proposta na base da amizade, da abertura e do diálogo”. Com o Concílio, passou-se da benevolência paternal ao diálogo fraterno.

–Dê exemplos deste diálogo.

–Pascal Fagniez: Neste diálogo, a Igreja não se contenta em dar conselhos. Em 1964, Paulo VI demonstrou arrependimento na homilia da “missa dos artistas” durante o Concílio: “Nós os ofendemos recorrendo ao falso, à obra de arte barata”. Seremos mais críveis se não recorrermos mais a objetos ou músicas de qualidade medíocre ou inadequadas a nossas igrejas. No mesmo sentido, o novo presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, Dom Gianfranco Ravasi, declarava há pouco no jornal La Croix que “a Igreja não deve se dedicar a uma recuperação desorientada de estilos antigos nem a produções artesanais sem ambição”.

Desde sempre os artistas se interessam pela fé sem ser necessariamente crentes. E muitos deles expressam preocupações humanas fundamentais como a vida e a morte, o amor e o ódio, a comunhão entre os seres e os poderes do espírito. Assim, em 1980, em Munique, João Paulo II discerne o ecce homo na arte moderna, o Cristo sofredor no homem “despojado de todos os adornos e transfigurações românticas, representado, por assim dizer, em uma desnudez realista”.

–Há uma arte cristã? 

–Pascal Fagniez: “A arte é em si mesma sagrada e religiosa”, escrevia Pio XII. A Igreja portanto é benevolente diante de toda arte, se é autêntica. “Se és inimigo da arte verdadeira, és nosso inimigo”, diz o Concílio.

Mas há uma maneira cristã de ser artista, que está ligada à vida no Espírito Santo, à fé, à esperança e à caridade. As obras de um Claudel ou um Fra Angelico, um Bach ou, mais recentemente, “A ilha”, de Pavel Lounguine, possuem uma luz que só o Evangelho pode dar. E há uma forma de arte especial, a Arte Sacra, diretamente ordenada ao serviço da liturgia. Todos os papas citados em meu livro concedem à arte em geral um valor quase sacramental, conferindo ao artista uma dignidade quase sacerdotal. Mas a arte alcança seu cumprimento na Arte Sacra que a Igreja situa no cume, porque esta arte comunica a Deus.

–A Igreja tem algo a contribuir para os artistas? 

–Pascal Fagniez: Sim. A princípio, uma resposta pela arte mesma: as obras inesquecíveis do passado, o trabalho de qualidade dos artistas cristãos atuais, os encargos de igrejas ou obras novas, sem esquecer o cuidado cotidiano dado a nossas liturgias. E uma resposta intelectual: a reflexão bíblica, filosófica e teológica. “A Igreja é especialista em humanidade”, escreve João Paulo II quando criou o Conselho Pontifício para a Cultura. Concedendo muito tempo e energia ao pensamento, a Igreja não cessa de sondar e pensar o mundo, e não faltam em seu seio as reflexões sobre a arte.

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